Vida Profissional e Negócios · Sub-tema

Empreender como quem coopera com a Providência

Do menino de terra batida que criou um aplicativo ao investidor que trocou a cidade pelo campo, o Anima já reuniu muitos empreendedores. Por trás das histórias de sucesso, uma mesma pergunta: o trabalho de criar pode ser um caminho para Deus?

O risco que ninguém enxerga

Existe no Brasil uma caricatura teimosa: a do empresário como explorador, alguém que enriquece à custa de quem trabalha para ele. Renato Villarinho, sócio-fundador da Zinzane e ex-atleta de vôlei que passou pela comissão técnica de Bernardinho, desmontou essa imagem no episódio #203 com uma pergunta simples. Quem vê o copo meio vazio olha o empreendedor e enxerga o cara que paga mal e explora. Quem vê o copo cheio enxerga alguém que colocou o próprio nome em jogo, pegou o empréstimo, correu o risco de tudo dar errado e, ao final, gerou emprego, sustento e uma mesa mais farta para outras famílias.

Esse risco é o coração escondido de empreender. Renato lembrou que o empresário começa cada mês devendo: assume um custo fixo, uma folha, um boleto, e só depois vai buscar o suficiente para pagar tudo. Ninguém tem garantia de que o negócio vai vingar. Por isso, disse ele, empreender é, no fundo, um ato de fé, na acepção mais concreta da palavra. Não a fé preguiçosa de quem espera cair do céu, mas a de quem dá o passo confiando que Deus dá o chão. A fé sem obras é morta, e o negócio que nasce só do desejo, sem trabalho e sem prudência, morre junto.

A fome, a urgência e o valor do labor

Poucas histórias ilustram isso melhor que a de Tallis Gomes, no episódio #239. Criado por uma avó empregada doméstica que trabalhava em três empregos e por um senhor que o acolheu como neto, ele começou a empreender aos 14 anos, revendendo celulares comprados no Mercado Livre para pagar a bateria de uma banda de rock. Aos 15, tornou-se pai, e ali, segundo suas próprias palavras, algo mudou: havia agora uma vida que dependia dele. A fome de trabalhar, que talvez sempre existisse, acelerou. Anos depois, num país onde apenas 4% da população tinha smartphone, ele teve o estalo que virou a Easy Taxi.

Tallis chama a própria trajetória de prova da Providência divina, e há aí uma lição que a fé católica ilumina. O trabalho não é castigo, é participação na obra criadora de Deus. A urgência de que fala Renato, a fome de que fala Tallis, não são ganância quando ordenadas ao bem: são a resposta madura de quem entende, como diz a doutrina social da Igreja, que o labor humano tem uma dignidade própria e que sustentar quem depende de nós é forma de amor. Empreender, nesse sentido, é assumir responsabilidade, não fugir dela.

Visão longa: construir para durar

Nem todo empreendimento explode em poucos anos, e talvez os mais sólidos raramente o façam. Ítalo Marsili contou no episódio #225 que o sonho de fundar uma faculdade nasceu por volta de 2007, numa troca de e-mails com um professor amigo. Passaram-se treze anos entre a primeira tentativa, inviabilizada pelo boom imobiliário e pela falta de recursos, e o momento em que a faculdade Mar Atlântico finalmente saiu do papel. Foram anos de reuniões, de manter viva uma ideia, de recomeçar. O propósito era claro desde o início: influenciar a cultura pelo ensino superior, ajudando as almas a amar o que é amável.

Essa paciência é uma virtude empreendedora pouco celebrada. Eduardo Martins, especialista em planejamento de carreira, alertou no episódio #165 para o drama de uma geração que nem estuda nem trabalha, perdida por não ter direção nem propósito. O antídoto não é pressa, é projeto. Construir uma marca, uma carreira ou uma instituição que dure exige enxergar além do trimestre, plantar o que só se colherá anos depois. Quem tem propósito, e não apenas ambição, aguenta o tempo que a obra pede.

Dinheiro, gratidão e o Deus do material

Se empreender gera dinheiro, é preciso saber o que fazer com ele, e aqui os episódios do Anima tocam num nervo católico importante. Marcelo Malta (#207) e Matheus Machado (#157) falaram do que impede o cristão de prosperar e, sobretudo, de administrar bem o que recebe. Matheus lembrou de uma figura pública que, questionada sobre gratidão a Deus por seu sucesso, respondeu que Deus ainda lhe devia. É a raiz do problema: quem atribui a si mesmo toda a competência, saúde e inteligência que o levaram longe esquece de Quem as concedeu. A colheita, observou ele, costuma vir; o ingrato aprende, mais cedo ou mais tarde, pela dor.

Há também um ponto delicado que Matheus provocou: muitos católicos tratam Deus como Senhor da fé, mas não do próprio dinheiro. A dificuldade das igrejas em se sustentar seria sintoma disso. Empreender bem, à luz do Evangelho, inclui administrar como bom servo os talentos recebidos, praticar a caridade e não fazer do lucro um fim absoluto. A parábola dos talentos não condena o ganho, condena enterrar o dom por medo. O oposto do bom empreendedor cristão não é o generoso, é o que esconde na terra o que poderia frutificar.

Um sonho, uma memória, uma vocação

Nem todo negócio nasce de uma planilha. Rosana Braem contou que a marca de cookies Bendito começou num sonho: uma voz de sotaque baiano lhe disse que estava usando ovo demais na receita. Do ajuste veio o produto, e do produto veio algo mais fundo, o resgate da memória do bisavô e a reconciliação com a história da família do pai, que ela passou a oferecer na missa. Empreender virou, para ela, um ato de gratidão e de perdão.

Essa dimensão vocacional reaparece na história de Lygia Pimentel (#71), a investidora que deixou a cidade para viver e criar os filhos no campo, redescobrindo a fé nas lembranças das tias que rezavam o terço ao fim da tarde. O empreendedorismo católico não é um bloco à parte da vida espiritual: é o mesmo chamado à santidade, vivido na roupa, no cookie, no aplicativo, na faculdade. Como sugere William Celso ao falar de posicionamento (#193), aquilo que somos transparece no que oferecemos ao mundo. Para o cristão, empreender bem é deixar transparecer, também no trabalho, a esperança que traz dentro.

Empreender é dar o passo confiando que Deus dá o chão, mas a fé sem obras é morta.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Empreendedorismo

Livros
  • Centesimus Annus

    Papa São João Paulo II · 1991

    Encíclica que reconhece o valor da livre iniciativa, da empresa e da criatividade humana no trabalho, sem perder de vista a dignidade da pessoa e a destinação universal dos bens.

  • Laborem Exercens

    Papa São João Paulo II · 1981

    Sobre o trabalho humano como participação na obra criadora de Deus; leitura essencial para entender por que empreender pode ser vocação e não apenas ofício.

  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja

    Pontifício Conselho Justiça e Paz · 2004

    Síntese organizada do que a Igreja ensina sobre trabalho, empresa, propriedade, lucro e o papel do empreendedor a serviço do bem comum.

  • A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

    Max Weber · 1905

    Clássico da sociologia que investiga como convicções religiosas moldaram a mentalidade empreendedora moderna; útil, com senso crítico, para pensar fé e trabalho.

Papers e documentos
  • Vocation of the Business Leader: A Reflection

    Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (antigo Pontifício Conselho Justiça e Paz) · Vaticano / Universidade de St. Thomas · 2018

  • Rerum Novarum

    Papa Leão XIII · Vatican.va · 1891

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 2426-2436 (A atividade econômica e a justiça social)

    Igreja Católica · Vatican.va · 1997

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.