Você nasceu com um jeito de ser que não escolheu e que não vai mudar. Mas conhecê-lo pode ser o começo de uma conversão profunda: aprender a governar o próprio cavalo em vez de ser arrastado por ele.
Um saber antigo que a Igreja guardou
Quando o terapeuta e analista de temperamentos Ronaldo Amorim esteve no Anima, no episódio "Desvendando os temperamentos", ele desfez logo um mal-entendido comum: temperamento não é moda nem autoajuda recente. É um saber com mais de três mil anos. Muito antes de Cristo, os filósofos já observavam que, desde a primeira infância, as crianças manifestavam maneiras de ser bem distintas: umas irritadiças, outras espontâneas e elétricas, outras sentimentais e ruminadoras, outras calmas e observadoras. E notaram algo decisivo: esse padrão atravessava a idade, a cultura, o lugar e a religião.
Hipócrates, por volta de 400 a.C., propôs sua teoria dos humores; Galeno, séculos depois, foi quem ligou explicitamente cada tipo às emoções. A antiga hipótese dos "fluidos" caiu, mas a observação que a originou permaneceu de pé: existe, sim, um jeito de ser que nasce com a pessoa. Ronaldo é franco ao explicar por que esse conhecimento foi esquecido: boa parte da psicologia moderna, ao adotar como única medida a evidência experimental, descartou o que veio da tradição cristã e medieval, inclusive a rica psicologia moral de Santo Tomás de Aquino. O temperamento, por não caber num exame de sangue, foi posto de lado. E é justamente essa herança que, nas últimas décadas, voltou a ser redescoberta por terapeutas de inspiração cristã.
Três palavras que costumamos confundir
O ponto mais esclarecedor da conversa é a distinção entre temperamento, caráter e personalidade, que quase todo mundo mistura. Somos, explica Ronaldo, formados por três dimensões: a biológica, a psicológica e a espiritual.
O temperamento é a dimensão biológica, a herança com que já nascemos. É um jeito de ser natural, fisiológico, que a pessoa carrega desde bebê e não escolhe. Nesse sentido, ele o chama de "carimbo", de "digital de Deus". Já o caráter é esse temperamento somado à história de vida: a família, a cultura, a fé, as feridas, as experiências que vão nos marcando. Nascemos com o temperamento, mas o caráter vamos adquirindo. Por fim, a personalidade é o todo, é a pessoa inteira agindo no mundo: o biológico, o psicológico e o espiritual reunidos, incluindo a liberdade e a capacidade de se relacionar com Deus, que só o ser humano, criado à imagem e semelhança do Criador, possui.
A consequência prática é libertadora. Muita gente rotula o outro pelo comportamento, aquele que bate na mesa e fala alto "é colérico". Mas comportamento é personalidade, não temperamento. O que define o temperamento não é como reajo, e sim o que sinto por dentro, e com que velocidade e duração a emoção nasce e permanece. Alguém pode sentir a ira subir num instante e, por virtude e educação, simplesmente não reagir. Por isso Ronaldo insiste: o temperamento diz respeito à emoção que grita dentro de nós, não ao ato que escolhemos praticar.
Dois quentes, dois frios
Para se situar, bastam duas perguntas. A primeira: quando surge uma emoção, ela vem depressa, num átimo, ou vai chegando aos poucos? Quem reage rápido é quente; quem demora a esquentar é frio. A segunda: depois de nascer, a emoção perdura por muito tempo ou passa logo? Quem retém é seco; quem solta é úmido. Do cruzamento saem os quatro tipos.
O sanguíneo é quente e úmido, associado ao ar: leve, expansivo, comunicativo, conecta-se com facilidade, mas se entusiasma e se cansa depressa, começa muito e nem sempre termina. Ronaldo lembra que Santo Agostinho, que "buscava fora o que estava dentro", e Santa Teresa d'Ávila, com seu Castelo interior, traduzem bem o caminho de conversão desse tipo: parar de buscar prazeres por fora e voltar-se para o interior. O colérico é quente e seco, o fogo: ativo, ágil, realizador, o que arregaça as mangas, mas que, desordenado, cresce além da conta e queima quem está por perto, ferindo especialmente os relacionamentos. Os frios, o fleumático (úmido) e o melancólico (seco), são mais observadores, analíticos, capazes de planejar e trabalhar em silêncio, ainda que travem diante de uma exposição pública.
A lição que atravessa tudo é que não há temperamento bom nem ruim. Como diz São Paulo, todos trazemos dentro de nós uma natureza boa e uma inclinação ao mal; cada tipo tem potências e paixões que podem virar vício. A pergunta certa não é "qual é o meu temperamento?", mas "o meu temperamento está ordenado?".
Domar o cavalo, temperar o mundo
A imagem mais forte do episódio é a do cavalo. A ordem querida por Deus, diz Ronaldo, é esta: Deus governa a alma pela graça, e a alma governa o corpo, o cavalo. Quando o temperamento se desgoverna, a hierarquia se inverte: o corpo passa a mandar na alma, e a alma se rebela contra Deus. Aí a pessoa vive dizendo "eu sou assim, não consigo mudar", como se o cavalo tivesse tomado as rédeas. Mas o temperamento não nos limita nem nos condena, porque a liberdade nunca nos é tirada. As tendências da natureza não são pecado em si; tornam-se pecado quando a alma consente e as transforma em atos.
Daí o trocadilho que dá título a este saber: temperamento vem de tempero. "Vós sois o sal da terra." Cada um foi chamado a temperar o mundo com os talentos e as virtudes que recebeu, não com os defeitos e as paixões desordenadas. Conhecer o próprio temperamento, portanto, não é ganhar uma desculpa, é ganhar um mapa: saber onde a graça precisa trabalhar para que a pessoa deixe de ser sua pior versão e se torne aquilo que Deus a criou para ser.
Quando a ferida vira lente: a quarta camada
Há um degrau a mais nesse trabalho, e Mila Marsili, no vídeo sobre a chamada quarta camada da personalidade, aponta para ele. Além do temperamento, existe o campo afetivo, e boa parte das pessoas fica "presa" nesse nível: passa a vida fazendo um cálculo silencioso de quanto amor recebe, de quanto está sendo aprovada, de quanto os outros a estimam. É uma demanda afetiva que muitas vezes não é real, mas espelho de algo vivido antes, sobretudo da qualidade do amor gratuito e desinteressado recebido dos pais.
Quem vive ali, descreve Mila, transforma tudo em ferida: uma mensagem escrita de forma diferente já vira suspeita de rejeição, qualquer comentário parece dirigido contra si, como se o mundo girasse ao redor da própria dor. E ela é sóbria ao dizer que esse não é um lugar para se envergonhar, porque a maioria das pessoas está nele, mas é um lugar de onde é preciso sair primeiro, antes que qualquer amadurecimento real aconteça.
Aqui as duas conversas se encontram no mesmo centro. Ronaldo lembra que o vazio que tentamos preencher com prazer, poder, compras ou relações não se sacia com nenhuma coisa deste mundo, porque a alma tem uma sede infinita e só o Infinito a preenche. Conhecer o temperamento e reconhecer a ferida afetiva são degraus de um mesmo caminho: sair de si, ordenar o próprio interior e abrir o coração para que a graça faça o resto.
A pergunta certa não é "qual é o meu temperamento?", mas "o meu temperamento está ordenado?".
Episódios que inspiram este texto
Ep #176 · Desvendando os temperamentos
Com o terapeuta Ronaldo Amorim, o episódio destrincha a origem histórica dos temperamentos, distingue com clareza temperamento, caráter e personalidade, percorre os quatro tipos e mostra, com a imagem do cavalo e do sal da terra, como transformar o autoconhecimento em caminho de virtude e santidade.
com Ronaldo Amorim
O que é QUARTA CAMADA DA PERSONALIDADE? (Mila Marsili)
Mila Marsili acrescenta a camada afetiva ao quadro: explica por que tanta gente fica presa na demanda de amor e aprovação, transformando qualquer gesto em ferida, e por que sair desse lugar é condição para qualquer amadurecimento.

