Da feira que reúne o mundo católico ao padre que evangeliza jogando videogame, os convidados do Anima mostram que a tela não é só entretenimento: é praça pública, e toda praça pede quem anuncie o Evangelho nela.
Todos são chamados — cada um do seu jeito
Existe uma tentação sutil quando se fala em evangelização digital: pensar que ela é coisa de quem tem microfone, câmera e milhões de seguidores. Kiara Castro, criadora da ExpoCatólica, a maior feira do segmento católico no mundo, desmontou essa ideia com simplicidade no Anima. Todos são chamados a evangelizar, disse ela, ainda que nem todos sejam chamados a estar na frente das câmeras. Compartilhar um episódio, comentar, apoiar um projeto de fé, levar um conteúdo bom a quem estava perdido — isso já é evangelizar. O Concílio Vaticano II havia dito o mesmo décadas antes: pelo Batismo, cada leigo participa da missão da Igreja. O digital apenas multiplicou as ocasiões de responder a esse chamado.
É um chamado que costuma nascer de uma conversão pessoal. Alam Carrion contou como saiu de uma juventude que ele mesmo descreveu como "à toa" — começou fazendo vídeos de futebol no velho Windows Movie Maker e uma página de fã-clube de banda — até que, amadurecendo na fé, trocou o nome do perfil e o transformou no projeto "Um Jovem Católico". Valeska Bruzzi, fenômeno do universo fitness, viveu algo parecido: a mesma facilidade de comunicar que a tornou influenciadora foi, depois da conversão, reorientada para Deus. A vocação digital raramente cai do céu pronta; ela reaproveita dons que já estavam ali, agora batizados.
Ir ao lugar onde as pessoas realmente estão
O Papa Francisco chamou a internet de "continente digital", e Bento XVI já falava do "ambiente digital" como novo areópago da missão. Nenhum episódio ilustra isso melhor que o do Padre Edson Ribeiro, o "padre dos joguinhos". Gamer desde a infância, ele levou o videogame consigo para o seminário e, ao jogar, foi percebendo que as histórias contadas nos jogos, nos filmes e nas séries podiam ser lidas à luz da fé. Onde outros viam só lazer, ele enxergou pontes: um paralelo com uma passagem bíblica, uma questão moral, uma pergunta sobre o sentido da vida. A juventude está nas plataformas de jogos; ir até lá é, para ele, simplesmente ir ao encontro da ovelha onde ela pasta.
O Padre Evandro Lima, da Canção Nova, tocou na raiz do problema que torna essa missão urgente. Muitos católicos, observou, foram batizados e fizeram a primeira comunhão, mas nunca foram de fato evangelizados: a fé virou herança cultural morna, sem experiência viva de Cristo. Foi assim com ele próprio antes de um grupo de oração reacender tudo. O digital, bem usado, alcança justamente esse católico distante — não para substituir a paróquia e os sacramentos, mas para despertar a sede que só a Igreja, presencial e sacramental, pode saciar.
Sem formação, o anúncio desmorona
A conta de seguidores impressiona, mas o que sustenta a evangelização digital é a formação. Guilherme, da Escola Santa Carona — um dos maiores apostolados digitais de formação de leigos no Brasil —, descreveu com precisão o mecanismo da perda da fé. Um parente protestante, num almoço de domingo, pergunta onde está na Bíblia que se pode ter imagens. O católico não sabe responder porque não percebe a premissa embutida na pergunta: a da "sola Scriptura". Ele vai procurar, não encontra da forma esperada, e o coração dá a primeira rachadura. Repetida ano após ano, essa dúvida não esclarecida leva alguém a deixar a Igreja em cinco ou seis anos sem quase perceber.
A solução, insistiu Guilherme, é formação — e ela começa em casa. A família é a primeira catequese; as dúvidas do filho não nascem diante do catequista, mas no quarto, na escola, na conversa com um coleguinha. Alam Carrion narrou a virada da própria história a partir de uma humilhação saudável: viu alguém, num fórum, provocar um jovem por não saber a diferença entre dogma e doutrina, percebeu que ele mesmo não sabia, e decidiu estudar. Saiu do sentimentalismo raso para um trabalho sério, com consistência e estudo. Sem essa base, o criador de conteúdo católico vira apenas mais uma voz opinando — e é aí que mora o risco. Mila Marsili, com seus "pitacos úteis", faz questão de dizer que fala de experiência própria, não como especialista que não é: honestidade que a doutrina exige de todos.
A ferramenta não é neutra no uso
Um princípio atravessou vários episódios: a plataforma não tem moral, mas o uso tem. O Padre Edson explicou isso a propósito do Roblox — um espaço que pode abrigar tanto criação sadia quanto aliciamento e conteúdo impróprio. A tecnologia é como uma caneca, disse ele: ela não é boa nem má em si, mas o que se faz com ela sim. Daí seu quadro "guia prático para pais perdidos": telas não são babá eletrônica; exigem acompanhamento, saber com quem e a quê o filho joga. É a aplicação digital de uma verdade antiga da doutrina: os meios técnicos são bons quando ordenados ao bem e à verdade.
Há ainda uma evangelização silenciosa, de bastidor. Arno Alcântara, produtor digital que trabalha nos bastidores da estratégia, mostra que nem todo missionário digital aparece — muitos servem na engenharia invisível que faz o conteúdo chegar. E há a evangelização por presença institucional: a ExpoCatólica de Kiara prova que o encontro físico e o digital não se opõem, alimentam-se um ao outro. A lição de fundo, que Guilherme resumiu com força, é que a fé se perde primeiro no coração, depois some da casa, depois da rua. A evangelização digital existe para inverter esse caminho — reacender o coração para que a fé volte a habitar a casa, a rua, a nação.
A tela não é o púlpito, mas é a praça — e nenhuma praça deveria ficar sem quem anuncie o Evangelho nela.
Episódios que inspiram este texto
Ep #269 · Conheça o PADRE que está CONVERTENDO JOVENS através do VIDEOGAME
Pe. Edson Ribeiro encarna o cerne da tese: ir ao continente digital onde os jovens estão. Seu método de ler jogos e histórias à luz da fé, e o princípio de que a plataforma não tem moral própria (o uso tem), dão base concreta e responsável ao tema.
com Pe. Edson Ribeiro
Ep #217 · Estratégias INOVADORAS Para Atrair Mais Fiéis Pela Internet
Guilherme, da Escola Santa Carona, mostra que evangelização digital só se sustenta sobre formação. Sua análise de como um católico mal formado perde a fé aos poucos ancora o artigo na questão doutrinal e catequética.
com Guilherme Cadoiss
Ep #216 · De Jovem Rebelde a Evangelizador Católico na Internet
Alam Carrion oferece o arco vocacional completo: de jovem 'à toa' que fazia vídeos de futebol a evangelizador que trocou o raso pelo estudo sério. Ilustra que a vocação digital reaproveita dons já existentes, agora convertidos.
com Alam Carrion
Ep #294 · ExpoCatólica: Tudo sobre a MAIOR FEIRA CATÓLICA do mundo
Kiara Castro, da ExpoCatólica, funda o princípio de que todos são chamados a evangelizar — inclusive quem só compartilha e apoia — e mostra a complementaridade entre o encontro físico e o digital.
com Kiara Castro