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Chamados pelo nome: o que a vida de padres e bispos revela sobre o sacerdócio

Do lavrador que virou bispo ao engenheiro da USP que virou padre do Opus Dei, os convidados do Anima mostram que o sacerdócio não é uma carreira escolhida, mas um chamado que atravessa cada história antes mesmo de ser compreendido.

Uma escolha que vem de antes

Quando o padre Paulo Ramalho conta sua história no Anima, começa por um detalhe que parece contradizer tudo: seus pais não eram católicos praticantes. Nada nele apontava para o altar. E, no entanto, olhando para trás, ele reconhece uma trama que o precedia. Citando São Josemaría Escrivá, lembra que Deus pensou em cada um de nós antes de criar o mundo, e ali já depositou a vocação. Nada é por acaso. O menino que jogava bola num clube do bairro do Sumaré, ao lado do Santuário de Fátima, não sabia que aquela amizade o levaria, anos depois, a trocar a Escola Politécnica pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz.

Essa é a primeira grande lição que atravessa quase todos os episódios: a vocação sacerdotal não nasce de uma decisão de carreira, mas de um chamado que já estava lá. O Catecismo ensina que ninguém se atribui a si mesmo o sacerdócio; ele é recebido como dom. O padre Matheus Aquino leva esse mistério ao limite. Sua mãe tentou abortá-lo aos quinze anos, tomou o medicamento indicado numa clínica clandestina, e ele simplesmente não morreu. O próprio médico ficou impressionado. Sua frase, dura e verdadeira, ecoa: só é a favor do aborto quem já nasceu. A vida preservada tornou-se vida entregue no ministério.

O terreno onde a semente cresce

Se o chamado vem de Deus, ele quase sempre germina em solo concreto, e esse solo tem nome: família e Eucaristia. Dom Paulo Romão, hoje bispo auxiliar do Rio de Janeiro, era o lavrador caipira que estudou só até a quarta série na zona rural do Paraná. Foi o único dos irmãos a chegar ao ensino superior. O que o formou, ele diz, não foi o estudo, mas o exemplo: um pai de honestidade rigorosa que rezava o terço todos os dias pedindo ajuda para pagar a prestação do sítio depois de uma chuva de pedra, e uma mãe caridosíssima. Era impensável faltar à missa dominical.

O padre Tony Moreira conta algo semelhante de outro ângulo. Menino pobre em Cotia, atravessava estrada de terra ainda no orvalho da madrugada para chegar à Santa Missa. A mãe prometia um sorvete depois; só mais tarde ele entenderia que o doce daquelas manhãs não era o sorvete, mas o Cristo que o esperava no altar. Dessa raiz nasceu sua convicção de que a Eucaristia é a base de todo caminho de santidade. O chamado ao sacerdócio, no fundo, é uma dilatação desse encontro: de comungar a Cristo passa-se a oferecê-Lo no altar para os outros.

Celibato: renúncia que só se entende pelo amor

Nenhuma conversa sobre o sacerdócio latino escapa da pergunta sobre o celibato, e o Anima a enfrenta de frente. Filipe Duarte oferece a chave mais luminosa: o celibato não é repressão, e sim antecipação. Quem se veste de preto e abdica da vida conjugal não está negando que o matrimônio seja bom, mas apostando em algo ainda maior, aquela realidade da eternidade em que, como ensina o Evangelho, não haverá casamento. É um sinal escatológico, um coração inteiramente disponível.

Contra a caricatura do padre frustrado, ele lembra os santos: João Paulo II, Madre Teresa, homens e mulheres de abstinência total que sorriam com uma facilidade desconcertante, justamente porque vislumbravam algo maior. A doutrina da Igreja é clara aqui, e São Paulo VI a expôs na encíclica Sacerdotalis Caelibatus: o celibato é dom que configura o padre mais plenamente a Cristo. Não é um problema a ser tolerado, mas uma riqueza a ser compreendida, vivida com sinceridade e sustentada pela graça, sem ilusões sobre a fragilidade humana.

Padres de carne, osso e joystick

O sacerdócio se encarna em cada tempo. O padre Edson Ribeiro, pároco em Minas Gerais, ficou conhecido como o padre gamer, e não por acaso. Crescido jogando videogame com a família, ele fez do limão uma limonada: usa os jogos eletrônicos, nas horas livres depois dos afazeres da paróquia, para alcançar jovens que a linguagem tradicional não toca. É a velha intuição missionária de encontrar as pessoas onde elas estão, para conduzi-las a Cristo.

O padre Adriano Zandoná, da Canção Nova, percorre outro campo igualmente contemporâneo: a cura interior, a ansiedade, a restauração das famílias, tudo iluminado pela mensagem de Fátima, que ele diz ter transformado cada aspecto do seu sacerdócio. Já Dom Devair narra o susto de ser chamado ao episcopado: quando o núncio liga, a lição é imediata, quando o Santo Padre chama, não se pode dizer não. O sacerdócio, e mais ainda o ministério do bispo, é obediência antes de ser projeto próprio. Diferentes carismas, um só ministério recebido, não inventado.

E o leigo? Não é problema de vocação

Falar de sacerdócio ordenado não diminui a vocação de cada batizado. O professor Diego Reis, leigo, casado e pai de muitos filhos, dá o contraponto necessário com um título provocador: não é problema de vocação, é preguiça. Muitas vezes o que parece dúvida vocacional é apenas falta de generosidade em responder ao que já se sabe. Todo batizado participa, à sua maneira, do sacerdócio de Cristo pelo sacerdócio comum dos fiéis, e é chamado a oferecer a própria vida.

Para quem sente algo se mexer no coração, os episódios sugerem caminhos práticos e sóbrios. Rezar a oração mental que São Josemaría ensinava, conversar com Deus como com um amigo, contando alegrias e preocupações. Frequentar a Eucaristia como base, não como enfeite. Buscar um diretor espiritual, como fez Dom Devair. E, sobretudo, não confundir silêncio com ausência de chamado: como no encontro profético que marcou o jovem Matheus Aquino, às vezes Deus fala por sinais que só o tempo esclarece. Discernir não é esperar certeza absoluta, é responder com confiança ao Amor que chama primeiro.

O sacerdócio não é uma carreira que se escolhe, mas um chamado que se recebe, e que muitas vezes já atravessava a vida antes de ser compreendido.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Sacerdócio

Livros
  • Catecismo da Igreja Católica (nn. 1533-1600, sobre o sacramento da Ordem)

    Igreja Católica · 1992

    A exposição de referência sobre o sacramento da Ordem: os três graus (bispo, presbítero, diácono), sua natureza e sua fonte em Cristo.

  • Caminho

    São Josemaría Escrivá · 1939

    Clássico da espiritualidade laical e sacerdotal citado de fato pelo padre Paulo Ramalho no episódio; ensina a santificar o trabalho e o dia a dia.

  • A Força do Silêncio: contra a ditadura do ruído

    Cardeal Robert Sarah (com Nicolas Diat) · 2016

    Meditação sobre o silêncio, a oração e a interioridade que sustentam a vida do sacerdote e de todo cristão que quer escutar o chamado de Deus.

  • Ele e eu

    Gabrielle Bossis · 1948

    Diário espiritual mencionado pelo padre Paulo Ramalho no episódio, útil para aprender a conversar com Jesus como com um amigo, chave da oração mental.

  • Introdução à Vida Devota

    São Francisco de Sales · 1609

    Guia clássico do discernimento e da vida de oração para todo estado de vida, sacerdotal ou leigo; ancora o caminho prático sugerido no artigo.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.