Há uma paternidade e uma maternidade que não nascem do sangue, mas da entrega. Nos episódios do Anima sobre adoção, dois testemunhos nos ensinam que acolher um filho é, antes de tudo, reconhecer que já fomos acolhidos por Deus.
Duas cruzes: a que se carrega sozinho e a que se carrega com Cristo
No episódio "Como a Fé Católica Transforma a Adoção", Bruna Gutstein descreve com uma imagem que não sai da memória a diferença entre dois modos de sofrer. Casada com Eric desde 2010, sonhando desde menina em ser mãe, ela e o marido enfrentaram longos anos de infertilidade. E dizem ter vivido, no matrimônio, duas cruzes: uma que tentaram carregar sozinhos, e outra que aprenderam a carregar com Cristo e com a ajuda de Nossa Senhora.
A distinção é decisiva. Quando o casal tentava sustentar sozinho o peso da espera, a cruz ficava pesada demais, quase insuportável. Foi ao entregar essa dor que ela deixou de ser um fardo mudo e se transformou em caminho. Bruna reconhece que, mesmo sendo católicos de família, ela e Eric ainda não tinham "a clareza da riqueza da fé católica" — conheciam Nossa Senhora de nome, mas não de coração. A infertilidade, longe de ser apenas uma privação, foi o lugar onde Deus os desinstalou de seus próprios planos para revelar o plano d'Ele.
Aqui está uma verdade que o mundo evita: o sofrimento não é, em si, sinal de abandono divino. A cruz que se carrega com o Senhor tem a companhia dos que sofrem ao Seu lado, como os ladrões no Calvário — um dos quais, ao se arrepender, ouviu a promessa do paraíso. A dor não deixa de doer, mas deixa de ser solidão.
Providência: quando Deus escreve com sinais
A história de Bruna é atravessada por pequenos sinais que só fazem sentido em retrospecto. Aos seis anos, alguém disse à sua mãe ver ao seu lado "uma santa do chapelão" — sem saber que santa era. Ela cresceu sem entender. Anos depois, já rezando por discernimento após relacionamentos que a haviam afastado da fé, começou a receber, de várias pessoas e por acaso, medalhas de Nossa Senhora das Graças.
O namoro com Eric começou com o teste da fé de ambos: cada um pediu a Deus, na Eucaristia, a confirmação de que aquele era o cônjuge querido por Ele. O início do namoro caiu no dia 27 de novembro — dia de Nossa Senhora das Graças, cuja vidente da Medalha Milagrosa foi Santa Catarina Labouré, a "santa do escondimento", que ninguém sabia ser a vidente enquanto viva. A "santa do chapelão" da infância enfim tinha nome.
Esse cuidado minucioso de Deus — que "não precisava ter feito isso", como observam os apresentadores — prepara o coração para a adoção. Depois de recusar uma promoção e reordenar a vida em torno do lar, Bruna e Eric receberam de uma vez cinco filhos: cinco irmãos biológicos. A Providência não improvisa; ela conduz. O que parecia uma esterilidade fechada era, na verdade, uma maternidade sendo dilatada para caber cinco vidas.
"Seja meu pai do coração": a paternidade que se descobre servindo
No episódio "A importância da adoção", Tônio Tavares — Antônio Carlos Tavares de Melo, leigo consagrado e fundador da Comunidade Católica Jesus Menino, em Petrópolis — conta um começo que ele mesmo não escolheu. Jovem coordenador da juventude diocesana, sonhando ser médico e ter uma família grande, foi convidado a visitar uma clínica de crianças com deficiências graves, muitas abandonadas pelos pais. Não queria ir; não sabia lidar com elas. Ao tocar a campainha, um menino, Alexandre, abriu o portão e disse: "Você quer ser meu pai? Eu não tenho pai." Diante da resposta de que era jovem demais, o menino insistiu: "Seja meu pai do coração."
Aquela frase inverteu uma vida inteira. Tônio descobriu, atrás de um jardim bonito, o que chama de "o inferno" do abandono: crianças cuidadas sem amor, tratadas como um "depósito", numeradas pelo valor do convênio que rendiam. Numa noite de frio e chuva, ao ver enfermeiras deitarem os meninos sem escovar-lhes os dentes nem cobri-los, ele saiu para fora e desafiou a Deus: "O Senhor não existe; a Igreja é uma mentira. Cadê a Sua presença no meio destas crianças?" E foi nesse limite que sentiu, no coração, uma paz que dizia: "Então dá tua vida por eles. Fica aqui com eles."
O discernimento seguinte é uma lição de eclesialidade. O bispo, Dom José Fernandes Veloso, reconheceu que aquilo "vinha do céu", mas pediu dois anos de silêncio e oração antes de fundar qualquer coisa — "Deus te espera em Nazaré". A obra que nasceria, Jesus Menino, hoje reúne dezenas de filhos adotados com deficiências, foi reconhecida pela Igreja, recebida por três papas e levada a mais de trinta países. A paternidade de Tônio não foi um projeto: foi uma resposta.
O que a fé acrescenta ao gesto de adotar
Adoção é uma realidade humana e civil nobilíssima — mas a fé católica a lê ainda mais fundo. Diante de Deus, todos nós somos filhos adotivos: "recebestes o Espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abbá, Pai" (Rm 8,15). Quem adota não faz apenas uma boa ação; participa do modo como o próprio Deus nos tratou, escolhendo-nos livremente, sem que fôssemos "do Seu sangue". São José, pai adotivo de Jesus na ordem do amor e da lei, é o ícone maior dessa paternidade que não brota da biologia e nem por isso é menos verdadeira.
O Catecismo lembra que a adoção pode ser "uma verdadeira forma de generosidade familiar" e um caminho de fecundidade para casais que sofrem a esterilidade (cf. CIC 2379), sem jamais reduzir o filho a um objeto de desejo ou a um direito. É a mesma verdade que atravessa os dois testemunhos: nem Bruna nem Tônio adotaram para "resolver" uma carência sua. Deixaram-se converter para poder receber o outro como dom.
Há também um alerta que os episódios não escondem. Tônio viu de perto instituições que "negociavam" crianças pelo valor de seus convênios; Bruna, como a lógica que arranca a mulher do coração do lar pode esvaziar a família por dentro. A adoção católica é o antídoto: reconhece na criança abandonada não um número, mas uma alma; e na família, não uma estrutura descartável, mas o lugar onde a vida é gerada e guardada.
Caminhos práticos para quem se sente chamado
O primeiro passo não é jurídico, é espiritual: rezar para perguntar a Deus o que Ele preparou, em vez de exigir d'Ele o que já decidimos. Bruna e Tônio só puderam acolher porque antes se deixaram esvaziar dos próprios projetos. Para quem atravessa a infertilidade, isso significa carregar a cruz com Cristo — buscando acompanhamento espiritual, os sacramentos e, quando for o caso, a orientação médica eticamente reta que respeita a dignidade do início da vida.
Em segundo lugar, procurar a Igreja e as vias legítimas. A adoção no Brasil passa pela habilitação no Judiciário, por preparação e por acompanhamento — e a paróquia, os grupos de casais e as pastorais da família são apoios concretos para amadurecer a decisão e sustentá-la depois. Ninguém adota bem sozinho, assim como ninguém carrega bem a cruz sozinho.
Por fim, alargar o coração. Nem toda vocação adotiva tem a forma de cinco irmãos de uma vez ou de uma comunidade inteira de crianças com deficiência. Mas todas partem do mesmo lugar: dizer, como Deus nos disse, "eu te escolho". A esterilidade biológica nunca é a última palavra sobre a fecundidade de um amor entregue.
Antes de sermos capazes de dizer a um filho "eu te escolho", precisamos descobrir que Deus já nos disse isso primeiro.
Episódios que inspiram este texto
Ep #122 · Como a Fé Católica Transforma a Adoção
Bruna Gutstein narra a travessia da infertilidade à adoção de cinco irmãos biológicos, mostrando como a fé transforma a espera em vocação e a cruz carregada sozinho em cruz carregada com Cristo.
com Bruna Gutstein
Ep #118 · A importância da adoção
Tônio Tavares conta como o pedido de um menino, "seja meu pai do coração", deu origem à Comunidade Jesus Menino e a décadas de paternidade adotiva a crianças com deficiências abandonadas — um testemunho radical de amor aos mais frágeis.
com Tônio Tavares