Ser pai não é um dado biológico que se resolve sozinho, nem um cargo que se ocupa por acaso. É uma vocação que se aprende, se sustenta e se doa. No Anima, convidados que vão de arquitetos a fundadores de comunidades nos ajudam a redescobrir o que significa gerar um filho para o Céu.
A crise não é de amor, é de autoridade
Há um mal-estar silencioso atravessando as casas brasileiras: pais que amam intensamente os filhos, mas se sentem inseguros, medrosos, quase reféns deles. No episódio sobre a autoridade paterna, João Malheiro põe o dedo na ferida ao lembrar que ninguém se prepara para ser pai. Antigamente, dizia ele, o "curso de pai" vinha dos avós e bisavós, de uma tradição familiar que passava de geração em geração o que era certo e o que era errado. Essa cadeia se rompeu. Somada a uma cultura relativista, em que "cada um diz o que quiser" e nenhuma verdade parece firme, a consequência é um pai desorientado, que decide na base do "se todo mundo faz, eu também faço".
O sintoma mais visível desse vazio é o pai que vira colega do filho. Malheiro é direto: a amizade não conserta os erros de formação, e a busca por ser o "amiguinho" nada mais é do que uma falta de autoridade disfarçada. Autoridade, no sentido que a Igreja sempre defendeu, não é autoritarismo nem dureza. Vem de "autor", de quem faz crescer. É a autoridade do bom professor: aquele que é referência porque sabe, porque estudou, porque tem algo verdadeiro a transmitir. O pai que se prepara, que se forma, recupera a segurança de conduzir — e o filho, longe de rejeitá-lo, encontra finalmente um chão firme sob os pés.
Quando os pais ainda são adolescentes
Adrianna de Abreu leva o diagnóstico um passo adiante ao falar da imaturidade dos pais. Ela descreve gerações de adultos que continuam adolescentes: querem apenas fazer o que gostam, não suportam o mínimo sofrimento e recuam diante da dor real que é educar um filho. Nesse cenário, a criança deixa de ser um dom a ser formado e vira troféu para exibir ou um direito de posse — o "principezinho", a "princesinha" da casa, amados enquanto não dão trabalho.
O exemplo que ela narra é desconcertante: uma mãe que desaba porque a filha de cinco anos disse "não te amo mais". O chão dela caiu. Mas, como observa Adrianna, quem está mais esperta ali é a criança, que aprendeu a fazer chantagem emocional porque percebeu a carência do adulto. O pai ou a mãe imaturo deposita no filho toda a sua necessidade afetiva e, por medo de perder esse amor, jamais diz um "não", jamais impõe um limite, jamais deixa o filho ficar frustrado. É o oposto do amor verdadeiro. Amar um filho é ter a coragem de contrariá-lo por seu bem, de tirar o celular da mão, de negar a festa, de sustentar a frustração sadia que faz a alma amadurecer. A mesma imaturidade explica pais que terceirizam toda a educação à escola e depois passam a mão na cabeça do filho contra o professor — abdicando, no fundo, da própria missão de educar.
Gerar para o Céu: a fé que se transmite em casa
Se a autoridade dá a estrutura, a fé dá o sentido. Adrianna alerta para o "desligamento da religião" tanto em casa quanto na escola, e o espanto dos pais quando o filho recusa a catequese ou a Crisma. A pergunta que ela devolve é implacável: e que formação você deu a ele? Não se colhe o que não se plantou.
O contraponto luminoso aparece na conversa com Mari e Carlos Arasaki, pais de doze filhos. Neles, a fé não é um discurso, é um hábito herdado e retransmitido: a missa desde a mais tenra idade, o terço rezado em família, o convívio semanal com os avós, a memória de rezar ao lado dos pais. Eles reconhecem que a missa diária é um privilégio nem sempre disponível — e é justamente aí que a paternidade se revela criativa: onde falta o padre por perto, o pai forma pela oração cotidiana, pelo terço, pela presença. A formação começa cedo, porque a criança pequena não vai à missa sozinha: são os pais que a levam, e é esse gesto repetido que "vai pegando", como se diz no Anima. O ambiente também educa. Rafa e Alex Brasileiro, arquitetos, mostram como a casa se torna lar quando é atravessada pela beleza e pelo sagrado — a oração feita no limiar da porta antes de sair, o ícone de Nossa Senhora na saída, os pequenos sinais que transformam quatro paredes num espaço que fala de Deus e forma quem ali cresce.
Pai do coração: a paternidade que se doa
Nenhum testemunho ilumina tanto o coração da paternidade quanto o de Tônio Tavares, que acolheu dezenas de filhos com deficiências severas, muitos abandonados. Tudo começou quando um deles, ainda menino, lhe perguntou: "você quer ser meu pai?". Diante da recusa por ser jovem demais, a criança insistiu: "seja meu pai do coração". Ali nasceu uma vocação que Tônio jamais planejara — ele sonhava ser médico e ter uma família natural numerosa. Deus lhe deu outra.
Sua história desnuda a diferença entre cuidar e amar. Ele conta a dor de ver crianças "cuidadas" sem carinho, deitadas sem que ninguém as cobrisse ou escovasse seus dentes, e o grito que dirigiu a Deus naquela noite fria: onde está a tua presença no meio deste sofrimento? A resposta que sentiu no coração foi um chamado: "então dá tua vida para eles". A adoção, aqui, não é plano B nem consolo: é participação na própria paternidade de Deus, que é Pai não por gerar biologicamente, mas por amar, sustentar e não abandonar. Toda paternidade autêntica — a do pai de sangue e a do pai do coração — bebe dessa mesma fonte.
Caminhos práticos para pais reais
O que esses testemunhos, tão diversos, têm em comum? Que a paternidade é aprendida e sustentada, não improvisada. Alguns passos concretos emergem deles. Primeiro, formar-se: ler, buscar orientação, conversar com pais mais experientes, recuperar a "tradição" que a cultura contemporânea dissolveu. Segundo, exercer a autoridade com serenidade: dizer "não" quando é preciso, sustentar a frustração sadia do filho, não trocar a firmeza pela busca de aprovação. Terceiro, amadurecer a própria vida afetiva, para não descarregar no filho carências que são do adulto. Quarto, transmitir a fé pelo exemplo e pela rotina — a oração em família, a missa, o terço, os sinais do sagrado na casa — porque a criança aprende o que vê repetido, não o que apenas ouve. E, sobretudo, entender que ser pai é doar-se: estar presente, gastar tempo, amar sem calcular retorno. Como ensina o Concílio Vaticano II, os pais são "os primeiros e principais educadores" dos filhos. Ninguém nasce pronto para essa missão. Mas todo pai que se coloca em caminho, sustentado pela graça, descobre que Deus completa o que lhe falta.
Amar um filho é ter a coragem de contrariá-lo por seu bem: a autoridade não é o oposto do amor, é a sua forma adulta.
Episódios que inspiram este texto
O QUE É A AUTORIDADE DE UM PAI? (João Malheiro)
João Malheiro nomeia o problema central da paternidade contemporânea: pais inseguros porque a tradição que os formava se rompeu, e a saída não é virar colega do filho, mas recuperar a autoridade de quem faz crescer.
A IMATURIDADE dos PAIS e como isso afeta a EDUCAÇÃO dos FILHOS (Adrianna de Abreu)
Adrianna de Abreu expõe como a imaturidade e a carência afetiva dos pais os tornam reféns dos filhos, incapazes de impor limites e de transmitir a fé — o retrato mais franco do que precisa amadurecer no pai antes de educar.
Ep #118 · A importância da adoção
Tônio Tavares mostra, com sua vida entregue a dezenas de filhos adotados com deficiência, que a paternidade é vocação e doação: ser 'pai do coração' revela que amar e não abandonar é o núcleo de toda paternidade.
com Tônio Tavares
Ep #101 · Desafios e alegrias de uma família numerosa!
Mari e Carlos Arasaki, pais de doze, encarnam a transmissão concreta da fé em família — missa, terço, convívio com os avós — e mostram que a formação religiosa dos filhos começa cedo e depende do exemplo dos pais.
com Mari e Carlos Arasaki









