Do Irã à Nicarágua, do Sahel à Ásia comunista, milhões de cristãos e de pessoas que apenas desejam viver a própria consciência pagam um preço alto pela liberdade religiosa. O Anima ouviu quem viu de perto.
Não é notícia distante: é o século mais violento para os cristãos
Costumamos imaginar a perseguição religiosa como algo dos primeiros séculos, das catacumbas e dos leões do Coliseu. Os episódios do Anima sobre o tema desfazem essa ilusão confortável. Quando recebemos Ana Manente, presidente no Brasil da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, do inglês Aid to the Church in Need), ficou claro que a Igreja perseguida não é um capítulo encerrado da história, mas uma realidade viva em mais de 140 países onde a fundação pontifícia atua todos os anos.
A ACN nasceu do olhar de um único padre. No pós-guerra, o holandês Werenfried van Straaten percorreu a Bélgica e a Holanda pregando algo escandaloso para a época: a reconciliação com o povo alemão, o "inimigo" recém-derrotado. As viúvas de guerra, que haviam perdido maridos e filhos, traziam o pouco que tinham para partilhar, muitas vezes toicinho, o que rendeu a Werenfried o apelido de "Padre Toicinho". Daquele gesto de perdão concreto nasceu uma obra que hoje sustenta a Igreja onde ela é atacada. É um lembrete de que a resposta cristã à perseguição começa sempre pela caridade, não pela vingança.
Muitos rostos, uma mesma ferida
A perseguição não tem um único rosto. Ela usa muitas máscaras, e os convidados do Anima ajudaram a reconhecê-las.
Há o rosto do fundamentalismo islâmico. Dom Laurent Dabiré, bispo de Dori e presidente da Conferência Episcopal de Burkina Faso e Níger, descreveu um país do Sahel onde o terrorismo, iniciado por volta de 2015, passou de sequestros e ataques a escolas ao massacre de civis dentro das próprias igrejas. Em vastas regiões controladas por grupos armados, o cristão é forçado a uma escolha brutal: submeter-se, partir ou morrer. Ainda assim, contou o bispo, as pessoas não abandonam a fé; correm riscos para se reunir e rezar aos domingos.
Há o rosto do totalitarismo de Estado. Pedro Delfino explicou por que a Igreja é perseguida na Nicarágua de Daniel Ortega: rádios e canais católicos fechados, freiras expulsas, bispos presos ou exilados, padres impedidos de celebrar Missa com a polícia bloqueando as portas dos templos. A Igreja tornou-se alvo por ter acolhido e protegido os perseguidos e por denunciar, à luz da Doutrina Social, as arbitrariedades de um regime.
E há o rosto da opressão que se disfarça de ordem moral. Mahsima Nadim, iraniana radicada no Brasil, relatou o que significa crescer numa teocracia onde a chamada "polícia da moralidade" prende mulheres por um fio de cabelo à mostra, onde o véu é imposto desde os sete anos e onde, disse ela, faltava até o direito de respirar.
A liberdade religiosa é um direito de todos, não um privilégio dos cristãos
É tentador reduzir o tema a uma disputa entre religiões. Seria um erro. O testemunho de Mahsima ajuda a enxergar mais fundo: aquilo que ela buscou ao deixar o Irã não foi trocar de credo, mas recuperar a liberdade de consciência, o poder de escolher, de falar, de existir sem medo. Essa é exatamente a liberdade que a Igreja defende para toda pessoa humana.
O Concílio Vaticano II foi límpido na declaração Dignitatis humanae: a pessoa tem direito à liberdade religiosa, e ninguém deve ser coagido a agir contra a própria consciência nem impedido de agir segundo ela em matéria religiosa, dentro dos justos limites. Esse direito se funda na dignidade da pessoa, conhecida tanto pela razão quanto pela Palavra revelada. Quando o Anima defende os cristãos perseguidos, portanto, não pleiteia um privilégio para os seus; reivindica um bem devido a todo ser humano, inclusive à mulher iraniana obrigada a se cobrir e ao dissidente silenciado por um regime ateu.
O sangue dos mártires e o silêncio dos livres
Diante de tanta violência, uma pergunta incomoda: por que o Vaticano, e os cristãos do Ocidente, não gritam mais alto? Pedro Delfino ofereceu uma chave realista. O Papa não dispõe de exército; seu rebanho está espalhado pelo mundo e vulnerável. Uma condenação demasiado incisiva pode, paradoxalmente, recair como castigo sobre os fiéis no terreno, expostos a mais represália. A prudência do Sucessor de Pedro, longe de ser omissão, é muitas vezes cuidado pastoral com quem está na linha de frente.
Mas prudência não é indiferença, e é aqui que entra o nosso papel. A perseguição prospera no silêncio confortável dos que são livres. Tertuliano já dizia, nos primeiros séculos, que o sangue dos mártires é semente de cristãos. Esse sangue continua a ser derramado, em Burkina Faso, na Nigéria, na Nicarágua, no Oriente. A questão é se saberemos regá-lo com oração e solidariedade, ou se o deixaremos secar em nossa distração.
O que podemos fazer, aqui e agora
A tentação, diante de dramas tão grandes, é a paralisia. Os episódios do Anima apontam caminhos concretos.
Primeiro, rezar. Não como fórmula piedosa, mas como ato de comunhão real com a Igreja que sofre. Foi o pedido explícito que atravessa cada entrevista: rezem pelos padres presos, pelos cristãos do Sahel, pelas mulheres do Irã.
Segundo, informar-se e dar voz. O simples fato de conhecer esses nomes e histórias e de repeti-los quebra o cerco do silêncio. Como observou Mahsima, muitos brasileiros sequer imaginavam a realidade das mulheres iranianas até ouvirem quem viveu isso.
Terceiro, apoiar quem já está no terreno. A ACN transforma doações em capelas, formação de seminaristas, transporte para que o padre alcance comunidades isoladas na Amazônia ou no interior africano, sempre com foco no auxílio pastoral: ajudar a Igreja a ser Igreja.
Por fim, valorizar a liberdade que temos. Poder acender uma vela, rezar o terço, ligar um podcast católico e falar abertamente da fé são bens que, em boa parte do mundo, custam a prisão ou a vida. Reconhecê-lo é o primeiro passo para não desperdiçá-lo, e para nos tornarmos, cada um, uma pequena Ajuda à Igreja que Sofre.
Aquilo que a iraniana buscou ao fugir não foi trocar de religião, mas o direito de respirar em consciência; é essa liberdade que a Igreja defende para todos.
Episódios que inspiram este texto
Ep #143 · Estão matando os cristãos
Ana Manente (ACN) oferece o panorama global da Igreja perseguida e a história fundante do 'Padre Toicinho', mostrando que a resposta cristã começa pela caridade e pelo perdão.
com Ana Manente
Ep #95 · Como a Fé resiste num dos lugares mais intolerantes do mundo?
Dom Laurent Dabiré traz o testemunho direto de um bispo do Sahel, onde o terrorismo islâmico esvaziou aldeias cristãs e atacou fiéis dentro das igrejas, sem apagar a fé do povo.
com Dom Laurent Dabiré
Ep #10 · Igreja Católica na Nicarágua, o que está acontecendo?
Pedro Delfino explica com clareza a mecânica da perseguição estatal na Nicarágua de Ortega e por que o Vaticano age com prudência, e não por omissão.
com Pedro Delfino
Ep #230 · O que não te contaram sobre a realidade das mulheres no Irã
Mahsima Nadim revela a face da opressão que se disfarça de moral religiosa no Irã e reenquadra o tema como uma questão universal de liberdade de consciência.
com Mahsima Nadim















