Sociedade, Política e Atualidades · Sub-tema

O mundo que não cabe na manchete: fé, liberdade e o próximo do outro lado do mapa

Do Irã à Nicarágua, de Israel a Burkina Faso, o noticiário internacional costuma chegar até nós reduzido a slogans. O Anima foi ouvir quem viu de perto — e descobriu que, por trás de cada conflito, há sempre um rosto humano e uma pergunta sobre a dignidade da pessoa.

Ler o mundo com os olhos do Evangelho

Há uma tentação diante das notícias internacionais: torcer por um lado como se fosse um campeonato, repetir hashtags, dividir o mundo em mocinhos e vilões. O professor Paulo Velasco, especialista em relações internacionais, deixou isso claro no episódio sobre Israel e Palestina: muita gente opina com veemência sobre o Oriente Médio "sem nunca ter aberto um mapa". Ele nos convidou a recuar no tempo — ao Império Otomano, quando cristãos de vários ritos, muçulmanos sunitas e xiitas, drusos e judeus conviviam, em relativa harmonia, na região que a Bíblia nos torna íntima: Belém, Jerusalém, a Via Dolorosa. As raízes dos conflitos atuais são geográficas, étnicas, culturais e religiosas ao mesmo tempo — e por isso não cabem num tuíte.

O Anima existe para ir mais fundo. A Igreja não nos pede que sejamos especialistas em geopolítica, mas nos pede algo mais exigente: enxergar em cada notícia o próximo. O bom samaritano não perguntou a nacionalidade do homem caído à beira da estrada. E é essa a lente com que a fé nos manda ler o mundo — não a da bandeira, mas a da dignidade humana, que é anterior a qualquer fronteira.

Onde ser cristão custa a vida

Em um dos episódios mais impactantes do acervo, Dom Laurent Dabiré, bispo de Dori, em Burkina Faso, e presidente da Conferência Episcopal daquele país, descreveu uma realidade que a maioria de nós mal imagina. Desde 2015, o terrorismo de matriz islamista se espalhou pelo Sahel — escolas fechadas, igrejas destruídas, comunidades inteiras esvaziadas, uma crise humanitária que faz vítimas não só pelas balas, mas pela fome e pela doença. Dom Laurent contou que não pode se deslocar mais que poucos quilômetros para fora da própria cidade sem risco de vida; para chegar à capital, precisa de helicóptero. E, ainda assim, o povo não abandonou a fé: assume riscos para se reunir, para rezar aos domingos, mesmo depois de fiéis serem mortos dentro de uma igreja durante a missa.

Esse não é um caso isolado. Ana Manente, presidente no Brasil da ACN — Ajuda à Igreja que Sofre —, mostrou que a perseguição religiosa é hoje um fenômeno global. A obra nasceu no pós-guerra com o padre holandês Werenfried van Straaten, o "Padre Bacon", que pregava a reconciliação entre os povos e, com caminhões transformados em capelas, levava sacerdotes aos que estavam do outro lado da Cortina de Ferro, onde o comunismo proibira a religião. Hoje a ACN atua em mais de 140 países, com milhares de projetos, ajudando a Igreja a simplesmente continuar sendo Igreja onde professar a fé é um ato de coragem.

Quando a liberdade não deixa respirar

Mahsima Nadim nasceu em Teerã e viveu 29 anos no Irã antes de vir para o Brasil. No episódio em que contou sua história, usou uma imagem que ficou: ela sentia que "não conseguia mais respirar" — não num sentido superficial, mas profundo, a asfixia de quem não pode escolher como se vestir, não pode sorrir alto em público, não tem direito às coisas mais básicas. Chamavam-na de "rebelde" simplesmente por reivindicar o que qualquer mulher deveria ter. Sua mãe lhe diz, sem rodeios, que se tivesse ficado estaria morta. Por trás das notícias sobre o Irã há mulheres reais, cujo grito por liberdade é, no fundo, um grito pela própria dignidade — algo que a fé cristã reconhece como inscrito por Deus em cada pessoa.

Não por acaso, o mesmo Irã reaparece quando o Anima perguntou "quem sustenta o Hamas?". O professor Paulo Velasco explicou que o regime iraniano — teocrático desde a revolução de 1979, onde política e religião se confundem — é o grande financiador de milícias na região, ao lado de monarquias do Golfo como o Catar. O dinheiro do petróleo alimenta um projeto de destruição, enquanto o povo comum, dos dois lados, paga a conta. Entender essas engrenagens não nos torna cínicos; nos torna capazes de rezar com precisão, sabendo por quem e por quê.

A Igreja como voz dos sem-voz

Nem sempre a perseguição vem do fanatismo religioso. Pedro Delfino, no episódio sobre a Nicarágua, narrou como o regime de Daniel Ortega passou a prender padres, exilar bispos, expulsar religiosas e fechar rádios e emissoras católicas. Por quê? Porque, quando o povo saiu às ruas em 2018 contra os abusos do governo e todos os partidos de oposição foram silenciados, a Igreja acabou sendo o último espaço em que os perseguidos encontravam abrigo. Os padres pregavam contra a opressão não por partidarismo, mas por uma questão de direitos humanos — e por isso caíram na mira de um ditador.

Aqui está um princípio precioso da Doutrina Social da Igreja: a fé não é neutra diante da injustiça. Quando denuncia a tortura, a mentira eleitoral e o desprezo pela dignidade, a Igreja não faz "política de partido" — faz o que sempre fez, defende o ser humano. É a mesma lógica que moveu o Padre Bacon no pós-guerra e que move a ACN hoje. O Estado que persegue a Igreja quase sempre está, no fundo, com medo da verdade que ela protege.

O que fazer com tudo isso

O primeiro caminho é rezar — não de forma vaga, mas concreta. Rezar por Dom Laurent e pelos cristãos do Sahel, pelas mulheres iranianas, pelos padres presos na Nicarágua, pela paz numa Terra Santa que é o berço da nossa fé. A oração informada é mais fervorosa do que a oração distraída.

O segundo é a caridade organizada. Obras como a ACN existem justamente para que a nossa compaixão não fique presa no sentimento: uma doação constrói uma capela, forma um catequista, sustenta um seminarista onde a Igreja é pobre e perseguida. O terceiro é resistir à preguiça intelectual: informar-se de fontes sérias, fugir dos slogans, aprender um pouco da história antes de opinar — como o próprio Anima procurou fazer ao trazer um professor de relações internacionais, uma ativista iraniana, um bispo africano e a presidente de uma fundação pontifícia. E o quarto, talvez o mais difícil, é cultivar em nós mesmos aquilo que o Padre Bacon pregava nas ruínas da Alemanha: o perdão e a reconciliação. Sem eles, nenhum povo — e nenhum coração — segue adiante.

O bom samaritano não perguntou a nacionalidade do homem caído à beira da estrada — e é essa a lente com que a fé nos manda ler o mundo.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Questões internacionais

Livros
  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja

    Pontifício Conselho Justiça e Paz · 2004

    Síntese ordenada dos princípios que orientam o olhar católico sobre política, direitos humanos, paz e dignidade da pessoa — indispensável para ler a realidade internacional com a Igreja.

  • Eles nos chamavam de padre Bacon (They Call Me the Bacon Priest)

    Werenfried van Straaten · 1961

    A autobiografia do fundador da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), citada por Ana Manente: a história de como a reconciliação e a caridade concreta reconstruíram a fé no pós-guerra.

  • Perseguidos: A guerra global contra os cristãos

    John L. Allen Jr. · 2013

    Reportagem ampla e documentada sobre a perseguição contemporânea aos cristãos, útil para dimensionar o que Dom Laurent e a ACN descrevem.

  • Caritas in veritate

    Papa Bento XVI · 2009

    Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral e a justiça entre os povos — chave para entender por que a Igreja não pode ser indiferente às questões internacionais.

  • Fratelli tutti

    Papa Francisco · 2020

    A encíclica da fraternidade universal e da amizade social, com a parábola do bom samaritano no centro: um manual para pensar o próximo além das fronteiras.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.

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