Conversão e Testemunho · Sub-tema

Quando o ateu descobre que a razão o levava a Deus

Muitos chegam ao ateísmo achando que ali mora a inteligência e a ciência. As histórias de quem voltou revelam o contrário: foi pensando com honestidade, até o fim, que encontraram Aquele que negavam.

O ateísmo que se imagina o dono da razão

Há um retrato que se repete nos testemunhos de ex-ateus que passaram pelo Anima, e ele é quase um autorretrato de época. O jovem inteligente, curioso, faminto por respostas sobre o sentido de tudo, encontra nos livros a promessa de que a religião é coisa de gente fraca e alienada, e que o lado da inteligência é o lado de quem nega Deus.

Gabriel Kanner descreve isso com franqueza no episódio "Ele foi ateu e descobriu que Deus existe". Aos quinze anos, sem qualquer formação religiosa em casa, ele leu de uma só vez o Manifesto Comunista, de Marx, e Deus, um Delírio, de Richard Dawkins. Saiu dali ateu e comunista, e assim viveu por quinze anos, chegando a ser membro de carteirinha da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Era, segundo ele mesmo, o tipo convicto e provocador, aquele que zombava de quem rezava.

Olhando para trás, Kanner faz um diagnóstico agudo: o ateísmo que ele viveu funcionava como uma religião às avessas. Tinha seus dogmas, seus apóstolos e seus santos, e no lugar de Deus colocava a ciência. É um ponto que a Igreja sempre soube: o coração humano é feito para adorar, e quando recusa o Criador não fica neutro, apenas troca de altar.

A virada racional: metafísica, não sentimento

O que reabre a porta, nesses casos, não costuma ser um susto nem uma emergência. É um livro lido até o fim, com honestidade intelectual. Guilherme Freire, mestre em filosofia, conta no episódio "Ex-ateu e mestre em filosofia revela a verdade" que começou a empilhar, lado a lado, obras ateias e obras cristãs, comparando os argumentos dos dois campos. E percebeu algo que o incomodou profundamente: os autores ateus, em regra, não conheciam de fato os argumentos cristãos, enquanto os cristãos conheciam muito bem os do outro lado.

Freire então fez uma experiência decisiva. Fechou-se com a Suma Teológica, na parte em que Tomás de Aquino demonstra a existência de Deus, e disse a si mesmo: este é o campeão dos argumentos cristãos; se ele estiver errado, não preciso me converter. Passou a madrugada lendo, e ao amanhecer só restava a conclusão: Deus existe. Foi São Tomás, e não a emoção, que o convenceu.

Kanner chegou ao mesmo lugar por caminho parecido. Ao descobrir Platão, Aristóteles, a metafísica e as cinco vias de São Tomás de Aquino, entendeu que havia invertido tudo: a posição verdadeiramente racional não era o ateísmo, era o teísmo. Aqui os dois convidados tocam num ponto que a apologética contemporânea insiste em esclarecer. Os argumentos clássicos sobre Deus não são um "Deus das lacunas", uma hipótese provisória para tapar o que a ciência ainda não explicou. São argumentos de outra ordem, metafísicos, tão necessários quanto a verdade de que os ângulos internos de um triângulo somam 180 graus. A ciência empírica investiga a natureza; ela não é a ferramenta própria para decidir se há um Criador, assim como um microscópio não serve para explicar a existência do próprio microscópio.

A razão abre a porta; o coração atravessa

Seria um engano, porém, reduzir a conversão a um argumento vencido. Os próprios convidados fazem questão de distinguir as duas coisas. Kanner reconhece que chegou racionalmente à conclusão de que Deus existe, mas que há um segundo momento, não redutível à lógica: o encontro pessoal com Jesus Cristo. A fé cristã não é a adesão a um teorema, é o "sim" a uma Pessoa.

E esse encontro nem sempre chega pela porta da biblioteca. Juliano Cazarré, em "Do ateísmo à conversão", narra o caminho oposto e complementar: com a esposa, decidira que Deus não existe, que o mundo é só uma combinação aleatória de átomos. O resultado foi o pior período da vida deles, o casamento à beira do fim. Numa noite de angústia tão real que sentia o coração partir-se, ele ligou para um amigo evangélico, um surfista simples que vivia a fé de verdade. O amigo foi até sua casa e rezou com ele a madrugada inteira. Foi ali, no fundo do poço, que Cazarré sentiu Cristo segurando seu coração, e reconheceu que era o mesmo Jesus que aprendera a amar quando criança.

Há, portanto, dois movimentos que se completam. A inteligência remove os obstáculos, desfaz as caricaturas, mostra que crer não é abdicar da razão. Mas quem atravessa a soleira é a pessoa inteira, tocada pela graça. Como ensina o Catecismo, a fé é ao mesmo tempo um ato humano razoável e um dom sobrenatural de Deus.

Caminhos para quem busca, e para quem acompanha

Desses testemunhos brotam pistas concretas, tanto para o ateu ou agnóstico sincero quanto para o cristão que deseja acompanhá-lo. A primeira é honestidade intelectual: ler os dois lados, e ler os melhores de cada lado, não as versões de rede social. Muita descrença se sustenta apenas porque nunca encarou de perto os argumentos clássicos.

A segunda é recuperar a distinção entre ciência e fé. A Igreja não é inimiga da ciência; deu ao mundo padres e bispos cientistas, e vê no estudo da criação uma forma de contemplar o Criador. O conflito costuma nascer de um mal-entendido: pedir à ciência empírica que responda a perguntas que são, por natureza, filosóficas e metafísicas.

A terceira é a comunhão concreta. Não foi por acaso que Kanner se abriu a Deus enquanto distribuía marmitas a moradores de rua com a mulher que viria a se tornar sua esposa, nem que Cazarré foi resgatado por um amigo que largou tudo para rezar a seu lado. A caridade vivida, a amizade fiel, uma comunidade que reza: muitas vezes é isso que torna a verdade, enfim, desejável. Quem quer ajudar um ateu a se converter faria bem em oferecer, ao mesmo tempo, bons argumentos e um testemunho de vida que valha a pena imitar.

A inteligência remove os obstáculos e desfaz as caricaturas; mas quem atravessa a soleira é a pessoa inteira, tocada pela graça.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Ex-ateus

Livros
  • Suma Teológica (I, questões 2 a 11: a existência e a natureza de Deus)

    Tomás de Aquino · c. 1265-1274

    A obra que, segundo Freire e Kanner, foi decisiva na virada racional. As cinco vias continuam sendo o coração da apologética clássica sobre a existência de Deus.

  • Os Irmãos Karamázov

    Fiódor Dostoiévski · 1880

    Romance que Freire cita como parte de seu retorno à fé; encena, com força inigualável, o duelo entre a descrença e o anseio da alma por Deus e imortalidade.

  • Fé e Razão (Fides et Ratio)

    São João Paulo II · 1998

    A carta encíclica que articula com precisão a unidade entre fé e razão, as 'duas asas' pelas quais o espírito humano se eleva à verdade. Leitura essencial para o tema.

  • Ortodoxia

    G. K. Chesterton · 1908

    O relato clássico de um homem que, pensando por conta própria, redescobre o cristianismo como a explicação mais sã da realidade. Espirituoso e profundo, ideal para o cético honesto.

  • As Confissões

    Santo Agostinho · c. 397-400

    O grande arquétipo da conversão: um coração inquieto que só encontra descanso em Deus. Une, como poucos, o rigor intelectual e a verdade do encontro pessoal.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.