Homens que dedicaram décadas ao púlpito evangélico descobriram, estudando a fé que combatiam, que a verdade os chamava para casa. As histórias que o Anima ouviu revelam um padrão surpreendente.
Uma travessia que sempre custa caro
Poucas conversões pesam tanto quanto a de um pastor. Não é apenas trocar de igreja: é rever a própria vida inteira. O professor Eduardo Faria, que passou mais de vinte anos no protestantismo e dez deles como pastor presbiteriano, descreveu ao Anima o ano mais difícil da sua vida: pregava todos os domingos numa igreja que alugava o auditório de um hotel em Ipanema, enquanto por dentro seu coração já era católico. Chorava escondido, somatizava a angústia, sentia que vivia duas vidas ao mesmo tempo.
O peso não é só espiritual. No mundo protestante, como Eduardo lembra com honestidade, o pastor costuma ser funcionário da instituição: recebe salário, mora em casa paga pela igreja, sustenta a família com aquilo. Deixar o púlpito significava perder a casa, a renda, amigos, e ferir sogros e familiares que o haviam recebido justamente como pastor. Altamir Gomes, que foi 25 anos protestante e 10 anos pastor da Aliança Cristã e Missionária em Curitiba, e Igor Pires do Nascimento, que estava no quarto ano do seminário presbiteriano, contam versões da mesma prova: amizades perdidas, parentes que deixaram de falar com eles, um período de deserto no início do retorno. Ninguém faz essa travessia por conveniência. Faz-se por convicção da verdade.
A história da Igreja como porta de entrada
O que mais chama atenção nesses relatos é que a virada quase nunca começa por uma emoção, e sim pelo estudo. Igor Pires contou que, dentro do próprio seminário presbiteriano, cursava a disciplina de História da Igreja. Ao ler as primeiras cartas de Santo Inácio de Antioquia, ainda no primeiro século, encontrou uma deferência clara à Igreja de Roma que o deixou com uma pulga atrás da orelha. A leitura dos Padres da Igreja, mesmo apresentada sob ótica crítica e protestante, ia mostrando que a Igreja sempre fora católica, e que a tese de uma corrupção posterior, no tempo de Constantino, não se sustentava diante das fontes.
Eduardo Faria descreve o mesmo choque ao se deparar com Santo Atanásio e com a doutrina mariana dos primeiros séculos. Ele se compara a Scott Hahn, o teólogo protestante americano que investigou para refutar o catolicismo e acabou encontrando a verdade que buscava. É um padrão notável: homens formados para pregar contra Roma foram, um a um, convencidos pela própria história que estudavam. A frase que Eduardo usou com a esposa, uma médica então em residência, foi cirúrgica: 'estou desconfiado de que a fé católica é a correta'. E ela, com maturidade de pesquisadora, respondeu: 'você tem uma hipótese, vamos investigar'.
O sacramento que faltava e o terço que transformava
Se o intelecto abre a porta, é a graça sacramental que atravessa o umbral. Altamir Gomes relata uma das descobertas que mais o marcaram: o protestantismo, ao longo dos séculos, esvaziou o batismo. Ele próprio, batizado e plenamente iniciado na Igreja Católica na infância, precisou se rebatizar ao entrar na igreja evangélica, porque ela não reconhece o batismo católico. A Igreja, ao contrário, reconhece como válido todo batismo feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O que se perdeu, nota Altamir, foi a compreensão do batismo como sacramento, como graça realmente infundida, e não como mero símbolo de uma decisão pessoal.
Já Igor Pires viveu essa redescoberta de forma comovente. Antes mesmo de se tornar católico, ainda protestante, começou a rezar o terço por causa da doença do pai. Fez a Nossa Senhora um pedido: se curasse seu pai, ele se converteria. O pai não foi curado, mas, como ele diz, o terço foi mudando a ele. À medida que rezava, percebia mudanças na vida interior e experiências com Deus que nunca tivera. Cresceu nele o desejo de comungar e de se confessar. É a intuição de São Luís Maria Grignion de Montfort: Maria é o aqueduto por onde a graça de Deus chega até nós. O Anima ouve testemunhos semelhantes de quem passou a rezar o terço diário pedido por Nossa Senhora de Fátima: a alma se transforma, e o que está ao redor se transforma junto.
Do púlpito ao hábito, e o papel de quem caminha ao lado
Nem todo retorno termina no mesmo lugar. Frei Angelo Faitanin, que fora líder protestante, hoje é frade menor capuchinho, vivendo os votos de pobreza, obediência e castidade na tradição de São Francisco de Assis. Sua trajetória mostra que a conversão não é só um 'voltar atrás', mas um mergulho que pode conduzir até a vida religiosa consagrada, ao coração mais radical da Igreja.
Quase todos esses homens sublinham o papel decisivo de quem caminhou ao lado. A esposa de Eduardo, sem estar ainda cem por cento convencida, disse que honraria os votos matrimoniais e leu para ele as palavras de Rute: 'o teu Deus será o meu Deus, o teu povo será o meu povo'. A esposa de Igor veio por um voto de confiança e, ao viver a fé, converteu-se de coração, encontrando também acolhida no acompanhamento espiritual do Opus Dei. E, num detalhe que sela a graça, o casal, após anos de infertilidade e uma dolorosa gravidez tubária, viu nascer o filho Álvaro, em homenagem ao beato Álvaro del Portillo, cuja relíquia acompanhou a gestação. A verdade, quando abraçada, não empobrece uma família: fecunda-a.
Um caminho aberto para quem procura
Para quem se reconhece nessas histórias, os relatos do Anima sugerem passos concretos e serenos. Primeiro, não ter medo do estudo honesto: ler os Padres da Igreja, a história do cristianismo dos primeiros séculos e autores como Scott Hahn não é traição à consciência, é fidelidade a ela. Segundo, buscar a experiência da oração, e de modo especial o terço, que abriu o coração de Igor antes mesmo que a cabeça terminasse de concluir.
Terceiro, procurar acompanhamento: um sacerdote, uma comunidade, alguém que já fez a travessia e conhece as provações do início. A dor de perder amigos e a estranheza da família são reais, mas passageiras, e a Igreja recebe seus filhos que voltam como o pai recebeu o pródigo. Nenhum desses convertidos diz que o caminho foi fácil. Todos dizem que valeu a pena. Como resume o testemunho de Eduardo, chega-se a um ponto em que ser leal à verdade pesa mais do que qualquer segurança, porque, no fim, é a verdade que liberta.
Formados para pregar contra Roma, foram convencidos, um a um, pela própria história que estudavam.
Episódios que inspiram este texto
Ep #248 · Conheça a história do EX-PASTOR protestante que virou CATÓLICO
Altamir Gomes, 25 anos protestante e 10 anos pastor, expõe com clareza a questão do batismo: por que os evangélicos rebatizam e como a Igreja Católica compreende o sacramento como graça infundida, não mero símbolo.
com Altamir Gomes
Ep #75 · Estudando para ser pastor, decidi voltar à Igreja Católica
Igor Pires do Nascimento mostra como o estudo dos Padres da Igreja no próprio seminário presbiteriano, começando por Santo Inácio de Antioquia, semeou nele a certeza de que a Igreja sempre foi católica.
com Igor Pires do Nascimento
Como a oração do terço mudou a minha vida e me tirou do protestantismo? (Igor Pires do Nascimento)
O relato do terço que transformou Igor ainda protestante, junto ao pedido pela cura do pai e à posterior graça do nascimento do filho Álvaro, ilumina como Maria conduz a alma antes mesmo da conversão intelectual.
Foi assim que deixamos de ser evangélicos
Eduardo Faria narra o ano de dupla vida como pastor de coração já católico e o diálogo com a esposa que respondeu a sua 'hipótese' com serenidade científica: vamos investigar.
com Eduardo Faria









