No Anima Podcast, ateus, ex-pastores, ex-traficantes, engenheiros, artistas e mães comuns contam a mesma coisa por caminhos opostos: a fé não se herda como um sobrenome. Ou cada um vê o rato correndo, ou mais cedo ou mais tarde para de correr.
"Deus não tem neto": o fim do católico de fachada
Poucas frases resumem tantos testemunhos do Anima quanto uma que o Padre Adriano Zandoná trouxe de seu formador, Monsenhor Jonas Abib: "Deus não tem neto, Deus só tem filho." A imagem que a acompanha é a do coelho que viu um rato e saiu correndo; os outros correram atrás só porque viram alguém correr — e, cansados, pararam. Quem viu o rato, esse foi até o fim. É a diferença entre acreditar de ouvido e ter, como diz Zandoná, uma experiência pessoal com Jesus: aquele instante em que a mente e o afeto se unem e ninguém mais precisa explicar quem Deus é.
Esse mesmo diagnóstico atravessa outras conversas. Altamir Gomes, ex-pastor que se tornou católico (Ep #248), afirma sem meias palavras que o "católico de IBGE" precisa acabar: ou se é católico de fato, com vida sacramental, ou não se é. Marcus e Yanna Varandas (Ep #258), cujo drama virou filme, reconhecem que estavam justamente nesse limbo — não por incredulidade, mas por rotina — quando o filho de cinco anos parou o coração por oito minutos e Marcus descobriu, no corredor da UTI, que havia esquecido como se reza o terço. A fé estava lá, adormecida; a provação a acordou. O testemunho de fé, nestes relatos, nunca é um rótulo recebido. É um encontro que se faz próprio.
Caminhos opostos, o mesmo ponto de chegada
O que impressiona no acervo é a variedade das portas de entrada. Gabriel Kanner (Ep #226) foi ateu convicto e chegou à fé pela razão: lendo Platão, Aristóteles e as cinco vias de São Tomás de Aquino, descobriu que a metafísica trata de perguntas que o método científico sequer se propõe a responder, e concluiu que a posição verdadeiramente racional era a existência de Deus. Sua conversão passou por uma ação social na pandemia e pelo namoro com uma jovem católica — a caridade concreta e o afeto abrindo a porta que o argumento depois atravessou.
O Padre Paulo Ramalho (Ep #287) veio de família não praticante e foi atraído, ainda menino, não por um sermão, mas pela educação e gentileza das pessoas de um clube ligado ao Opus Dei — do engenheiro civil formado na Poli-USP nasceu o sacerdote. Wellington Perciliano (Ep #185) fez o percurso do crime à cruz, saindo do tráfico. Tony Allysson (Ep #228) trocou o rock pela missão. Eugênio Jorge (Ep #289), que já cantou para três Papas, resume o preço da fecundidade numa frase que lhe veio no meio do sofrimento: "somente os frutos justificam a dor de uma poda." Razão, beleza, dor, caridade: caminhos diferentes, e todos desembocam no mesmo Cristo vivo.
A fé se transmite por contágio, não por herança
Se ninguém nasce neto de Deus, como a fé chega até nós? Pelo testemunho de quem já a vive — e o testemunho mais eloquente costuma ser o mais silencioso. Enrico Misasi e Maria Clara (Ep #293) contam que o pai de Enrico se converteu primeiro; a mãe, ainda não batizada, foi conquistada não por argumentos, mas por seis, sete anos de convivência e vida matrimonial ao lado de um homem transformado. A conversão de um foi a evangelização do outro.
É o mesmo princípio que Paula Guimarães (Ep #283), missionária da Canção Nova, sustenta ao insistir que a primeira frente de evangelização é a própria família — marido, mulher e filhos bem, o oratório junto à porta de casa. Aqui a doutrina católica é precisa: a fé é dom de Deus, mas Ele Se serve de testemunhas. O Concílio Vaticano II lembra que a Igreja existe para evangelizar, e São Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, cravou a frase que estes episódios encarnam: o homem contemporâneo escuta mais de bom grado as testemunhas do que os mestres, e se escuta os mestres é porque são testemunhas. Vida coerente antes de discurso convincente.
Quando a fé não dá resposta, dá sentido
Nenhum destes testemunhos vende uma vida sem cruz. Pelo contrário: quase todos passam pela dor — o filho na UTI, o luto, o vício, a rejeição na infância, a poda que arranca o que parecia essencial. O Padre Zandoná faz aqui uma distinção que vale ouro pastoral: a fé nem sempre responde ao porquê do sofrimento, mas sempre dá sentido a ele. À mãe que perdeu um filho não há explicação lógica; houve, porém, uma Mãe ao pé da Cruz que, sem entender, confiou que Deus sabia o que fazia. A fé não elimina o mistério; ela o habita.
Daí a maturidade destes relatos. A conversão não é o fim da estrada, é o começo. Altamir Gomes descreve a descoberta da obediência à Igreja — "prefiro errar com a Igreja do que morrer sem ela" — e do valor insubstituível dos sacramentos, que Cristo não deixaria em tão grande número se fossem dispensáveis. Zandoná fala das "cinco pedrinhas" da Canção Nova como experiência diária: rosário, Palavra, jejum, adoração, vida na comunidade. A fé que se vê nasce de um encontro, mas só permanece cultivada dia após dia.
Caminhos práticos para quem quer ver o rato
Do conjunto destes episódios brotam gestos concretos, não fórmulas mágicas. Primeiro: buscar deliberadamente um encontro pessoal com Cristo — na oração feita com o coração, na adoração eucarística, num retiro, na leitura orante da Palavra. A fé de segunda mão não sustenta uma vida.
Segundo: reconquistar a vida sacramental. Confissão frequente e Eucaristia foram, para o ex-pastor Altamir e para tantos convertidos, o divisor de águas entre acreditar e viver. Terceiro: não temer a razão. O caminho de Gabriel Kanner mostra que estudar bem a fé — Catecismo, filosofia clássica, os grandes doutores — fortalece em vez de ameaçar. Quarto: assumir que você é testemunha para alguém. Como na história dos Misasi, a conversão silenciosa e perseverante de um cônjuge, de um pai, de uma mãe evangeliza mais do que mil palavras. E, por fim, oferecer as podas: aquilo que hoje dói pode ser, como no CD "Frutos" de Eugênio Jorge, a raiz do que dará mais fruto amanhã. Testemunhar a fé, no fundo, é deixar que Deus faça de nós um argumento vivo de que Ele existe.
Deus não tem neto, só tem filho: ou cada um vê o rato correndo, ou mais cedo ou mais tarde para de correr.
Episódios que inspiram este texto
Ep #274 · Conheça a incrível história do Padre Adriano Zandoná
Padre Adriano Zandoná resume o tema com a metáfora de Monsenhor Jonas — 'Deus não tem neto' — e distingue a fé que dá resposta da fé que dá sentido ao sofrimento.
com Padre Adriano Zandoná
Ep #226 · Ele foi ateu e descobriu que Deus EXISTE
Gabriel Kanner mostra a conversão pela razão: das cinco vias de São Tomás à metafísica, o ateu que descobre ser a fé a posição verdadeiramente racional.
com Gabriel Kanner
Ep #293 · Conheça o testemunho de fé emocionante de Maria Clara e Enrico Misasi
Maria Clara e Enrico Misasi ilustram como a fé se transmite por contágio: a mãe convertida por anos de convivência matrimonial, não por argumentos.
Ep #258 · INEXPLICÁVEL: O MILAGRE que virou filme na Netflix
Marcus e Yanna Varandas encarnam o despertar do católico adormecido: diante do filho na UTI, reaprender a rezar o terço e ver a fé antes latente ganhar vida.
com Marcus e Yanna Varandas