Fé e Vida Espiritual · Sub-tema

O sacramento que ninguém quer e todos precisam: a confissão como caminho de reconciliação

É chamado de o sacramento mais mal compreendido e menos aproveitado pelos fiéis. E, no entanto, é ali, ajoelhado diante de um homem que empresta a voz a Cristo, que a alma volta para casa. Um percurso pelo que os convidados do Anima descobriram sobre a confissão.

O medo que não vem de Deus

Há uma cena que se repete em quase toda paróquia: a fila da comunhão é longa, a fila da confissão é curta. Por quê? A resposta que Thomas McKenna trouxe ao Anima é direta e desconcertante: a confissão é um dos sacramentos mais mal entendidos e menos aproveitados hoje, e por trás disso quase sempre há uma única palavra: medo. Medo do padre, medo do julgamento, medo de ouvir de volta a lista dos próprios pecados.

Esse medo, insistem os convidados, não vem de Deus. Padre Thiago Bartoli desmonta a fantasia com bom humor pastoral: quem hesita em se confessar costuma imaginar que o padre vai guardar cada falta na memória e ficar remoendo. "Eu já tenho os meus pecados", ele brinca, "vou ficar lembrando dos seus?" O confessor não é um juiz que coleciona faltas; é um instrumento da misericórdia. E há uma verdade libertadora que Bartoli faz questão de dizer a quem se acha o pior dos pecadores: nenhum pecado é tão original assim. Ninguém vai inventar um mal novo capaz de esgotar a paciência de Deus.

Por isso Bartoli não hesita em usar uma imagem forte: a confissão é "o maior dos exorcismos". Não porque substitua o rito, mas porque é ali que a alma sai das garras do inimigo. O demônio, diz ele, trabalha justamente para que a pessoa permaneça no pecado mortal, fora do estado de graça. Manter alguém longe do confessionário é uma de suas vitórias mais silenciosas.

Cinco passos, um só encontro

A confissão não é um desabafo genérico nem um momento de improviso. Padre José Edilson, retomando o Catecismo, recorda os cinco atos que a compõem: o exame de consciência, a dor dos pecados (a contrição), o propósito de emenda, a confissão das faltas ao sacerdote e o cumprimento da penitência. Cada um tem seu peso, mas talvez o mais mal feito seja o primeiro.

Padre Bartoli tem pouca paciência com o exame de consciência preguiçoso: aquele do "não matei ninguém, não roubei, não traí, então não tenho pecado". Isso, para ele, é um péssimo exame. O caminho sério é outro: tomar os Dez Mandamentos e desmembrá-los um a um, percebendo em cada mandamento onde de fato se caiu. Ele sugere um gesto concreto e humilde — escrever. Anotar tudo o que se lembra, sem justificar e sem contar a "história cabeluda" que transfere a culpa para o marido, a vizinha ou as circunstâncias. Florear os pecados, adverte, só atrapalha: prejudica até o padre, que precisa enxergar com clareza para orientar. E é bom não deixar tudo para a última hora: reserve um tempo, vá à adoração, peça a inspiração — de preferência, sugere Bartoli, com Nossa Senhora ao lado, porque Ela não aponta para si mesma, aponta sempre para o Filho.

Mas o coração de tudo é a contrição unida ao propósito de emenda. Padre Edilson usa uma comparação cortante: pedir perdão dizendo "eu te dei um tapa, mas vou continuar te batendo" não é pedir perdão. Ir ao confessionário apenas para "anestesiar a consciência", sem arrependimento real, esvazia o sacramento. Confessar-se, lembra ele, é reconciliar-se com Deus dentro de uma proposta de vida nova.

E quem carrega uma situação irregular?

Aqui o Anima tocou numa das questões pastorais mais delicadas: podem se confessar e comungar os casais em segunda união? A resposta de Padre José Edilson é firme e ao mesmo tempo profundamente pastoral — e vale distinguir cada fio para não cair nem na rigidez fria nem na permissividade rasa.

O ponto de partida é doutrinal, não meramente canônico: quem vive numa situação que contradiz o vínculo matrimonial e permanece nela sem propósito de mudança não pode fazer uma confissão válida, porque falta exatamente o propósito de emenda. A absolvição pressupõe a decisão de deixar o pecado. Por isso Edilson é claro: absolver quem quer continuar no mesmo caminho não é um favor, é uma confissão inválida.

Mas — e este "mas" é decisivo — a porta não se fecha. Retomando o capítulo 8 de Amoris Laetitia, do Papa Francisco, tantas vezes mal lido pelos dois extremos, Edilson mostra o caminho real: procurar o sacerdote, buscar direção espiritual, entrar num itinerário de conversão. Há casais que assumem viver em continência, como irmãos; há quedas ao longo do percurso; mas o que muda tudo é a pessoa ter claro na consciência que está nesse caminho. A comunhão, quando chega, é fruto amadurecido dessa caminhada, não um atalho para calar a culpa. E o mesmo princípio, lembra ele, vale para os jovens: também eles são chamados a essa conversão, ainda que sem o vínculo social do matrimônio.

Voltar para casa: a experiência de Juliano Cazarré

Nenhuma doutrina toca tanto quanto uma história vivida. E a de Juliano Cazarré, contada no Anima, é das que ficam. Para viver o papel de Cristo na Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, o ator começou a ler os Evangelhos sinóticos — e algo, sem que ele controlasse, começou a se mover por dentro. Meses depois, de férias em Brasília, ouviu o sino de uma igreja próxima à casa do pai. Aquele som, ele conta, bateu fundo: "que saudade de uma missa".

De volta ao Rio, foi a uma missa de domingo e, na segunda-feira, voltou para se confessar. Ali, depois de décadas longe da Igreja, desfiou diante do padre a lista inteira de tudo o que tinha feito. E ouviu a frase que resume o sacramento: "Meu filho, a gente estava rezando por você o tempo todo. Que bom que você voltou." Cazarré descreve o que sentiu com uma palavra: casa. Sentiu-se acolhido, perdoado, capaz de ser de novo a criança que tinha medo de pecar para não ofender a Deus.

A confissão, no relato dele, não foi um ponto de chegada, mas de partida: dali veio a fome de estudar a fé, a regularização do casamento, a primeira comunhão da esposa, o batismo dos filhos, uma vida sacramental inteira. Foi o que McKenna intuiu ao ver filas de cem, cento e cinquenta pessoas esperando para confessar diante de uma imagem de Nossa Senhora: cada um que se reconcilia começa a cumprir, na própria vida, a mensagem que o Céu insiste em repetir — a de Fátima, a da conversão que começa pequena, em mim, e daí transborda para o mundo.

Caminhos práticos

Se faz tempo que você não se confessa, os convidados do Anima deixam pistas concretas. Prepare-se: separe um tempo antes, de preferência diante do Santíssimo, e faça um exame de consciência a sério, percorrendo os Dez Mandamentos um a um. Escreva o que lembrar, sem justificar e sem terceirizar a culpa. Peça a intercessão de Maria, que sempre aponta para o Filho.

No confessionário, seja simples: acuse-se com verdade, sem florear, e receba o conselho e a penitência como parte da cura. Não vá apenas para poder comungar ou calar um mal-estar; vá para reconciliar-se e recomeçar. E se você carrega uma situação irregular, não conclua que a Igreja fechou a porta: procure um sacerdote e entre no caminho. A reconciliação é menos um tribunal e mais um abraço — o do pai que já estava rezando por você, esperando na estrada.

Ninguém inventa um pecado novo capaz de esgotar a misericórdia de Deus — o inimigo só precisa que você não vá.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Confissão e reconciliação

Livros
  • Catecismo da Igreja Católica (§§ 1420-1498, 'O sacramento da Penitência e da Reconciliação')

    Igreja Católica · 1992

    A referência doutrinal citada pelos próprios convidados: os cinco atos do penitente, a necessidade do propósito de emenda e o sentido da absolvição. Ponto de partida obrigatório.

  • Reconciliatio et Paenitentia (Exortação Apostólica sobre a reconciliação e a penitência)

    São João Paulo II · 1984

    O documento do Magistério que melhor aprofunda por que a confissão individual permanece via ordinária da reconciliação, tema que McKenna toca ao lamentar o abandono do sacramento.

  • Amoris Laetitia (Exortação Apostólica sobre o amor na família), cap. 8

    Papa Francisco · 2016

    O capítulo diretamente discutido por Padre José Edilson sobre acompanhar, discernir e integrar as situações irregulares num caminho de conversão, sem liberalismo nem rigidez.

  • Diário de Santa Faustina: A Divina Misericórdia na Minha Alma

    Santa Faustina Kowalska · 1981

    Clássico espiritual sobre a misericórdia que espera o pecador no confessionário; ecoa a experiência de acolhimento narrada por Juliano Cazarré.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.

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