Longe de ser um castigo, o jejum é a penitência universal que atravessa toda a história da salvação. Ele não é sofrer por sofrer, mas esvaziar as mãos para que Deus possa enchê-las.
Uma penitência que Deus não precisa, mas o homem sim
Há uma frase que resume toda a espiritualidade do jejum e que apareceu com nitidez na conversa do Anima com o Pe. Renato Britto: o jejum não é um sofrer por sofrer. Deus não tem necessidade do nosso sofrimento. O jejum é, antes, um ato de "retirar aquilo que é superficial para eu reconhecer o que é essencial". Podemos ficar oito horas sem uma refeição e não morremos por isso, mas não podemos ficar oito horas sem rezar, porque a oração é vital. O jejum reordena o desejo: ao dizer não à urgência do estômago, o cristão redescobre que a fome mais profunda do coração humano é fome de Deus.
Por isso a Igreja nunca separa o jejum da oração e da esmola. Essas três obras formam um só gesto de conversão: mortifico-me, rezo e me volto para o próximo. Retirar o supérfluo sem preencher o vazio com oração seria apenas dieta; encher-se de oração sem qualquer renúncia corre o risco de ficar só nas palavras. É a união dos três que abre, como dizia o missionário Eduardo Oliveira, "tantas outras janelas espirituais" que a alma sozinha jamais imaginaria.
Jejum e abstinência: duas palavras que a linguagem popular confunde
No episódio dedicado à Quaresma, o Pe. Renato Britto desfez com clareza uma confusão comum. Jejum, em sentido estrito, é abster-se de alimento: a norma da Igreja pede ao menos ficar sem duas refeições — normalmente uma grande e uma pequena —, e quem quiser pode ir além, chegando a uma tarde inteira sem comer. Abstinência é outra coisa: é deixar de comer carne. Na disciplina da Igreja latina, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa pedem jejum e abstinência; as demais sextas-feiras do ano guardam caráter penitencial, tradicionalmente pela abstinência de carne, que em muitos lugares pode ser substituída por outra obra de piedade ou caridade.
Daí que dizer "estou fazendo jejum de chocolate" ou "jejum de rede social" seja, tecnicamente, abstinência — um propósito quaresmal válido, desde que se saiba o que se faz. O padre também alertou, com bom humor, contra o autoengano de transformar a comida penitencial numa festa: fazer da bacalhoada ou do prato japonês uma "mega produção" esvazia o sentido. E lembrou a sabedoria de São Francisco de Assis, que, temendo que um prato saboroso demais aguçasse a gula, misturou-lhe cinzas — não por desprezo à criação, mas para lembrar que o cristão come para viver, e não vive para comer.
A Quaresma nasceu no deserto de Cristo
A Quaresma não é uma invenção posterior: foi inaugurada pelo próprio Cristo, que passou quarenta dias e quarenta noites no deserto antes de iniciar sua missão, jejuando e vencendo as tentações do maligno. O número quarenta ecoa toda a Escritura — os quarenta dias do dilúvio, os quarenta anos de Israel no deserto — como tempo de provação e de conversão. Os três evangelhos sinóticos narram que Jesus foi "levado" pelo Espírito ao deserto; o Pe. Renato observou que o verbo grego em Marcos tem a força de ser impelido, arrastado. Não há vitória sem luta: quem busca uma vida só de facilidades não entende que o sofrimento virá de todo modo, e a questão é enfrentá-lo com Cristo ou sem Ele.
Aqui o padre trouxe uma distinção preciosa: em grego, tentação e provação são a mesma palavra, peirasmós. O que decide o sentido é o contexto — e o contexto, no fim, é a nossa resposta. Se diante da dificuldade baixamos a cabeça e murmuramos, foi tentação e caímos; se respiramos fundo e seguimos para a vitória, foi provação e vencemos. A penitência quaresmal é justamente o treino dessa fortaleza: aprender a dominar a própria carne para que, na hora da prova, a alma esteja firme.
Atacar a raiz, não o sintoma
Um dos pontos mais lúcidos da conversa desmontou uma ilusão devota. Não basta dizer "esta Quaresma vou parar de reclamar" ou "não vou pecar", como se a mera abstenção do pecado fosse penitência: o pecado devemos evitar sempre, em qualquer tempo, e não apenas por quarenta dias. Encarar de frente um vício de estimação "a murro e ponta de faca", olhando só para a consequência e nunca para a causa, costuma terminar em desânimo e recaída. Há sempre um desequilíbrio interior que nos empurra àquele pecado; enquanto ele não é tratado, a força de vontade sozinha não vence.
É nesse ponto que o jejum revela seu poder terapêutico. Ao desestabilizar o apego mais básico — o do alimento e do prazer imediato —, ele nos ensina o autodomínio que depois se estende a outras áreas da vida. Quem aprende a esperar diante do prato aprende também a esperar diante da ira, da luxúria, da inveja. O jejum não ataca o sintoma; ele fortalece a raiz da virtude, aquela constância que a tradição chama de fortaleza.
Caminhos concretos: começar pequeno, rezar sempre
Como viver isso na prática, sem heroísmos irreais? O Pe. Renato propôs um treino simples e progressivo: tomar o café da manhã e não comer mais nada até o jantar, cerca de oito a dez horas, cada um respeitando seu limite. A Quaresma é a estação para exercitar o que depois pode se estender às sextas-feiras do ano inteiro. E há uma advertência clínica que a Igreja sempre faz e que o padre reforçou: gestantes, diabéticos, enfermos e quem toma medicação com necessidade de alimento não devem fazer o jejum rigoroso; para eles, a penitência pode ser comer o que não se gosta, oferecer uma esmola ou acrescentar uma oração. Água nunca quebra o jejum — é vital —, e "jejum de água" não existe.
O missionário Eduardo Oliveira, autor de um livro sobre vinte e um dias de oração e jejum, partilhou uma forma inspirada no profeta Daniel: por três semanas, alimentar-se apenas de frutas, verduras e legumes, unindo essa renúncia a um roteiro diário de oração — não só por si mesmo, mas pela Igreja, pelas finanças, pela família, pelos outros. Ele insiste que não se trata de dieta nem de jejum intermitente, e recomenda incluir alimentos que dão sustância, como batata ou mandioca, para não debilitar o corpo. O testemunho é o de sempre: quem une jejum e oração experimenta uma força e uma clareza que a alma, sozinha, não alcança. É essa a penitência universal — não um peso a mais, mas mãos esvaziadas para receber.
O jejum não é sofrer por sofrer: é retirar o supérfluo para reconhecer o essencial. Podemos passar horas sem comer, mas não sem rezar.
Episódios que inspiram este texto
Ep #81 · Quaresma. O que devo fazer?
Com o Pe. Renato Britto, o episódio distingue com precisão jejum e abstinência, explica as normas da Igreja e mostra por que a penitência deve atacar a causa do pecado, não o sintoma — a espinha dorsal doutrinal deste artigo.
com Pe. Renato Britto
Ep #127 · Tudo sobre o jejum: a penitência universal
Com o missionário Eduardo Oliveira, traz a experiência concreta do jejum unido à oração (o jejum inspirado em Daniel) e frutos espirituais e comunitários, iluminando o lado prático e vivencial do tema.
com Eduardo Oliveira

