Ir a Fátima, à Terra Santa ou ao santuário da própria cidade nunca foi turismo religioso. É o corpo inteiro entrando na fé — e voltando diferente. Do que os convidados do Anima viram, tocaram e rezaram nesses lugares, nasce uma pergunta antiga: por que ainda peregrinamos?
Sair de casa para encontrar Deus
Há uma intuição que atravessa toda a história da salvação: para encontrar Deus, é preciso caminhar. Abraão deixa a terra de seus pais, o povo de Israel atravessa o deserto, os Reis Magos seguem uma estrela, e os discípulos de Emaús só reconhecem o Ressuscitado ao partirem o pão no fim da estrada. Peregrinar é entrar nessa lógica com o corpo inteiro. Não é levar a fé de casa para um lugar bonito — é deixar-se deslocar por ela.
Kenya e Berthaldo, ao contarem no Anima a viagem de bodas de casamento pela Itália e por Portugal, tocam nesse ponto quando descrevem os lugares por onde passaram como "verdadeiros presentes de Deus" — e confessam que muita gente pergunta o porquê dos papeizinhos deixados nos santuários, dos gestos, dos costumes. A peregrinação sempre gera essa curiosidade porque ela é, no fundo, um catecismo vivido com os pés. O Catecismo da Igreja Católica define a peregrinação como imagem do caminho terreno rumo ao Céu (nº 2691): cada passo em direção a um santuário é ensaio do único caminho que importa, o que nos leva a Deus.
Onde a história deixou de ser distante
A Terra Santa é o lugar em que a fé deixa de ser abstrata. Pisar o solo por onde Jesus andou muda a leitura do Evangelho para sempre — as páginas passam a ter chão, poeira, calor e distância. Pedro Siqueira, em sua peregrinação, narra experiências intensas: a missa celebrada perto de Emaús, a descida ao poço da casa do Sumo Sacerdote, onde a tradição situa a prisão de Jesus na noite da Paixão, e a parada no Santo Sepulcro, diante do lugar onde o Senhor foi crucificado e sepultado.
Seus relatos são carregados de emoção e de fenômenos que ele mesmo confessa não saber explicar. Aqui vale a serenidade que a própria Igreja ensina: a fé não depende de sinais extraordinários, e a devoção sadia não os busca. O valor perene da Terra Santa não está no espetacular, mas no realíssimo — o Verbo se fez carne num lugar concreto da terra, e visitá-lo é confessar que a Encarnação aconteceu de verdade. Mesmo o episódio no Muro das Lamentações, onde Pedro rezou ao lado de judeus ortodoxos, aponta para algo maior: Jerusalém é o coração orante de três fés, e o cristão que ali reza reza também pela paz daquela terra ferida. São José, cuja carpintaria em Nazaré tocou profundamente o convidado, lembra que a santidade nasceu no trabalho silencioso de uma casa comum.
Fátima e a peregrinação de uma mensagem
Se a Terra Santa é a origem, Fátima é talvez o destino de peregrinação mais amado pelos brasileiros — e o mais cercado de perguntas. No Anima, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, e o historiador Marco Daniel Duarte enfrentam de frente as polêmicas e curiosidades. O testemunho do reitor é revelador: ordenado sacerdote na própria Basílica de Fátima e responsável por acolher São João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco, ele descreve o santuário não como um lugar que se sonha, mas que "acontece" — uma missão confiada, não escolhida. A autenticidade das aparições de 1917 aos pastorinhos, reconhecida pela Igreja, e a atualidade permanente da mensagem — conversão, penitência e oração pela paz — são o que sustentam o santuário, muito além das curiosidades.
Esse mesmo espírito peregrinou pelo mundo nos ombros de Thomas McKenna, que há mais de quarenta anos leva uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a mais de cem países. Ele conta ter visto pessoas afastadas da Igreja voltarem à missa, ajoelhadas e em lágrimas diante da imagem. Não é a estátua que opera: é a mensagem de Fátima e a intercessão de Maria que reconduzem almas ao seu Filho. A imagem que caminha inverte a lógica — quando o povo não pode ir ao santuário, o santuário vai ao povo.
A peregrinação que cabe perto de casa
Peregrinar não exige passaporte. O Padre Leandro Rêgo apresenta no Anima a insólita cidade de Ave Maria, na Flórida, fundada por Tom Monaghan — o criador da Domino's Pizza — depois de descobrir, já bilionário, que nem o serviço militar, nem a esposa, nem os filhos, nem a riqueza haviam preenchido o vazio de seu coração, até o encontro com Jesus na Eucaristia. Uma cidade inteira brotou de uma devoção mariana e de um coração convertido: prova de que o impulso peregrino também constrói, também planta.
Monsenhor Agostinho, pároco da Catedral de Belém, mostra a mesma seiva na maior procissão mariana do país, o Círio de Nazaré, que reúne milhões em torno de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré achada por um caboclo à beira de um rio — devoção que atravessa o Atlântico desde Portugal. E o Diácono Rômulo Canuto descreve o Santuário de Fátima do Rio de Janeiro como um lugar onde, ao cruzar o portão, sentiu-se diante de solo santo, como quem ouve o "tira as sandálias dos pés" dito a Moisés. Fica a lição prática: a peregrinação verdadeira não é a distância que se vence, mas a disposição do coração. Um santuário na sua cidade, uma caminhada penitente, um terço rezado com atenção — tudo isso é caminho. O importante é sair de si e voltar transformado.
Peregrinar não é levar a fé a um lugar bonito — é deixar-se deslocar por ela e voltar diferente.
Episódios que inspiram este texto
Ep #190 · Fátima: Polêmicas e curiosidades reveladas
O reitor de Fátima, Padre Cabecinhas, e o historiador Marco Daniel Duarte esclarecem polêmicas e mostram a autenticidade e a atualidade da mensagem — a base doutrinal de qualquer peregrinação mariana séria.
com Padre Cabecinhas e Marco Daniel Duarte
PEREGRINAÇÃO de PEDRO SIQUEIRA à TERRA SANTA
A peregrinação de Pedro Siqueira à Terra Santa traduz, em experiência viva, o que significa pisar o solo do Evangelho e ver a Encarnação deixar de ser abstração.
Ep #21 · 40 anos de viagem com a imagem de Fátima
Thomas McKenna e seus 40 anos levando a imagem peregrina de Fátima a mais de cem países ilustram a peregrinação inversa: quando o santuário vai ao encontro do povo.
com Thomas McKenna
Ep #66 · Círio de Nazaré. O que você sabe dessa grande festa?
O Círio de Nazaré, contado por Monsenhor Agostinho, mostra a peregrinação como devoção popular enraizada, que atravessa o oceano e move multidões perto de casa.
com Monsenhor Agostinho















