Igreja, Doutrina e Teologia · Sub-tema

As duas asas: por que a fé católica não teme a inteligência

São Joao Paulo II escreveu que a fe e a razao sao como duas asas pelas quais o espirito humano se eleva a verdade. No Anima, ateus convertidos, filosofos, padres e uma neurocientista contam, cada um a seu modo, como essas duas asas voam juntas.

O ateu que se converteu estudando

Poucas historias derrubam tao bem o clichê de que crer e coisa de gente que nao pensa quanto a de Gabriel Kanner, no episodio 226. Ele nao foi um catolico morno que se afastou: foi ateu de carteirinha, membro de uma associacao brasileira de ateus, convicto dos quinze aos trinta anos. Aos quinze, leu de uma vez o Manifesto Comunista e Deus, um Delirio, de Richard Dawkins, e saiu de la ateu e comunista. Do comunismo se curou cedo; do ateismo, nao.

O que Gabriel percebe hoje, olhando para tras, e que aquele ateismo militante funcionava como uma religiao as avessas. Havia um deus, a ciencia; havia apostolos e santos, Dawkins e Sam Harris; havia dogmas e uma comunidade que os defendia. A diferenca e que, ao trocar de lado, ele nao trocou de metodo. A conversao, insiste, foi um caminho profundamente racional, feito de estudo, leitura e reflexao, deflagrado quando conheceu a esposa, Martina, ja catolica, servindo marmitas a moradores de rua na pandemia de 2020. A caridade abriu a porta; a inteligencia atravessou-a. E o retrato exato do que a Igreja sempre ensinou: a fe nao pede que o intelecto se cale, mas que ele va ate o fim de suas perguntas.

A fe e uma virtude da inteligencia

O titulo do episodio com o ator e diretor Roberto Mallet, o 177, ja e uma tese: a fe e uma virtude da inteligencia. Nao um sentimento vago, nem um salto no escuro contra a razao, mas um ato em que a inteligencia adere a uma verdade por confiar em Quem a revela. Mallet, que estudou filosofia por decadas e interpretou o demonio no cinema, faz uma observacao afiada sobre o adversario dessa inteligencia: o demonio, lembra ele com Baudelaire, tem como maior astucia fazer o homem acreditar que ele nao existe. E cita ainda uma frase que usa em sala de aula, o homem e o unico animal capaz de fazer uma coisa acreditando piamente que faz outra.

Ai esta o ponto delicado. A razao humana e magnifica, mas ferida; nossas paixoes nos cegam para o lado negativo daquilo que desejamos. Por isso a fe nao e inimiga da razao, e sua cura e sua guardia. Ela nao suprime a inteligencia; devolve-lhe o objeto que ela sozinha nao alcanca com seguranca. Uma razao que se fecha em si mesma, adverte a tradicao catolica, acaba mais credula, nao menos, porque passa a acreditar que so existe aquilo que ela mede.

Tomas de Aquino e a harmonia sem buracos negros

Se ha um nome em que fe e razao se encontram, e Tomas de Aquino, tema do episodio 137 com Sidney Silveira, um dos maiores divulgadores da escolastica no Brasil. Silveira conta que sua propria conversao passou pela Suma Teologica: ao abrir a primeira questao, sobre se a teologia e ciencia, e a segunda, sobre a existencia de Deus, encontrou resolvidos dilemas que o acompanhavam ha anos. Nao por acaso a Suma foi colocada ao lado da Biblia no Concilio de Trento.

O coracao do tomismo cabe numa formula que Silveira repete: a graca nao destroi a natureza, ela a supoe e a aperfeicoa. Deus nao pede que o crente jogue fora a razao ao receber a fe; Ele a eleva. Por isso, diz Silveira, a doutrina catolica e das coisas mais belas que conhece, por sua harmonia extraordinaria, sem buracos negros: tudo tem sentido, funcionalidade, explicacao. Aristoteles, lembra o filosofo Renato Moraes nos episodios 195 e 13, ja era mais teista do que se costuma admitir, buscando uma verdade absoluta como fundamento de todas as verdades menores. A fe crista nao contradiz esse itinerario da razao, leva-o ao seu termo, Aquele a quem a filosofia chega tateando e a Revelacao chama pelo nome.

Ciencia, cultura e a filosofia que as universidades esqueceram

A oposicao entre fe e ciencia e, em grande parte, um mal-entendido historico. Renato Moraes recorda que as proprias universidades nasceram no seio da cristandade, entre os seculos XI e XII, quando escolas se uniram sob a conviccao de que a verdade e uma so e vale a pena busca-la. Foi tambem o cristianismo que semeou hospitais e orfanatos. O drama contemporaneo, diz ele, e uma crise de cultura, de raizes cortadas: uma filosofia que quase se confunde com ateismo e um racionalismo que empurra Deus para o canto. Ele elogia os raros ambientes academicos que permanecem simplesmente abertos a possibilidade de Deus como assunto serio.

Essa integracao aparece de modos concretos nos demais episodios. O Padre Andre Luiz Rodrigues, no 146, sobre fe, ciencia e tradicao, recupera Sao Justino Martir, filosofo e leigo do segundo seculo que reconheceu no cristianismo a verdadeira filosofia. A neurocientista e psicologa Gislene Isquierdo, no 114, conta que sentia falta de algo mais concreto e cientifico na psicologia subjetiva de sua formacao, e foi buscar fundamento no funcionamento do cerebro, sem por isso abandonar a fe que herdou da mae catequista. E o Padre Leandro Rasera, no 167, ao diagnosticar uma crise que hoje vem de dentro, uma crise de fe alimentada pela ditadura do relativismo denunciada por Bento XVI, aponta como resposta nao menos inteligencia, mas mais interioridade e doutrina firme.

Caminhos para o leitor

A licao comum a esses convidados e libertadora: crer com inteligencia e possivel, e mais, e o modo catolico de crer. Alguns passos praticos ajudam a percorrer esse caminho.

Primeiro, estude a propria fe. A maioria das objecoes contra o catolicismo desaba diante de meia hora de leitura seria; comece pelo Catecismo e por uma boa introducao a Tomas de Aquino. Segundo, nao separe oracao e razao: a conversao de Gabriel e de Sidney nasceu do encontro entre estudo e vida sacramental, confissao, missa, caridade concreta. Terceiro, leia os adversarios com honestidade, como fez Gabriel, sem medo, porque a verdade nada teme. Quarto, integre, nao oponha: a ciencia que voce estuda, a profissao que exerce, a psicologia, a fisica, a arte, tudo pode ser oferecido a Deus como via de conhecimento. As duas asas de que fala Joao Paulo II so servem se batem juntas. Voar com uma so e cair em circulos.

A fe nao pede que o intelecto se cale, mas que ele va ate o fim de suas perguntas.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Fé e razão

Livros
  • Carta Enciclica Fides et Ratio

    Papa Sao Joao Paulo II · 1998

    O documento de referencia sobre o tema. A imagem das duas asas, fe e razao, que percorre este artigo vem daqui.

  • Suma Teologica

    Sao Tomas de Aquino · 1265-1274

    A grande sintese entre fe e razao. Comece pela primeira questao, sobre a teologia como ciencia, e pelas cinco vias da existencia de Deus, exatamente os textos que marcaram Sidney Silveira.

  • Catecismo da Igreja Catolica

    Igreja Catolica · 1992

    Ver especialmente os paragrafos 31 a 38 e 154 a 159, sobre as vias de acesso a Deus e a relacao entre fe e razao. Base segura e acessivel.

  • Introducao ao Cristianismo

    Joseph Ratzinger (Bento XVI) · 1968

    Uma exposicao serena e profunda do que significa crer diante da razao moderna, do mesmo autor que denunciou a ditadura do relativismo lembrada no episodio 167.

  • As Confissoes

    Santo Agostinho · 397-400

    O relato classico de uma inteligencia inquieta que so descansa em Deus. Ecoa nas conversoes intelectuais narradas no Anima.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.

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