Igreja, Doutrina e Teologia · Sub-tema

A liturgia não é um espetáculo: por que cada gesto da Missa tem um sentido

Do incenso que sobe como oração aos ritos milenares do Tríduo Pascal, a liturgia católica não foi inventada por nós, e é justamente por isso que ela nos alcança. Uma travessia guiada pelos convidados do Anima que dedicaram a vida a entendê-la.

Recebida, não inventada

Há uma frase que atravessa quase todas as conversas do Anima sobre liturgia e que vale como chave de leitura para tudo o mais: a Missa não é um show. Foi assim que Dom Devair colocou o dedo na ferida. O mais importante que temos, ele lembrou, são a Palavra e o Sacramento, e banalizar isso, transformar a celebração num espetáculo para prendê-la atrativa, é trair aquilo que ela é. A Missa tem um ritmo próprio, e esse ritmo não pode ser violentado. Isso não significa frieza nem distância: significa que o padre, o leitor, o cantor têm a missão de conectar as pessoas ao mistério, mas com a linguagem da Igreja, não com invenções pessoais.

O Padre Fábio Balbino, doutor em Ciência da Liturgia pelo Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma, deu a essa intuição um fundamento preciso ao longo da série de seis episódios sobre a Santa Missa. A liturgia, explicou, pertence à Igreja e não a uma pessoa. Por isso o Missal Romano orienta a celebração de ponta a ponta. E ele contou uma cena que resume a beleza dessa unidade: se você pegar um avião para a Austrália e entrar numa igreja católica, encontrará a mesma Missa que se celebra no Rio de Janeiro. É o mesmo pão que alimenta e que cria comunhão. A liturgia é, ao mesmo tempo, universal e capaz de acolher os elementos legítimos de cada cultura.

Repetir para se apropriar

Uma objeção comum é que a Missa seria repetitiva demais. Padre Balbino responde a isso de um modo que desarma a queixa: é justamente aí que mora a beleza. Repetimos os mesmos gestos, mas nos apropriando deles de uma forma sempre nova. O Concílio Vaticano II chamou isso de participação ativa, e a expressão não quer dizer agitação exterior nem necessidade de criar novidades a cada domingo. Participação ativa é estar presente na celebração com todo o próprio ser, com a própria história: hoje eu venho com uma angústia, amanhã com uma alegria, e é a mesma liturgia que recebe a mim em cada estado.

Daí a advertência que ele repete em seus cursos por todo o Brasil: conhecer bem a sagrada liturgia serve para celebrar melhor e viver melhor. Quando entendemos por que o padre se veste de determinado modo, por que faz este gesto e não outro, descobrimos que nada ali está jogado ao acaso. Gestos e palavras na celebração, insistiu Balbino, não têm caráter funcional, e sim ritual. A procissão de entrada não é apenas chegar porque já deu a hora, como quem entra num estádio; o desdobrar do corporal sobre o altar não é adiantar serviço. Cada coisa tem seu momento e seu significado, e é isso que faz a assembleia perceber a grandeza do que se celebra, não uma pipoca de cinema, como ele lamentou ter visto certa vez, mas o encontro com o mistério.

O incenso que sobe como oração

Poucos elementos ilustram melhor esse peso simbólico do que o incenso. No episódio com Martinho Rocha, fundador de uma casa dedicada a incensos litúrgicos, o Anima recuperou uma tradição que remonta à Antiguidade e que a Escritura consagra. O incenso aparece entre os presentes dos Magos ao Menino de Belém, junto ao ouro e à mirra; e o Salmo 141 pede que a oração suba como incenso à presença de Deus. No Apocalipse, a fumaça do incenso é imagem das preces dos santos que ascendem diante do trono. Quando o turíbulo é elevado na Missa, esse gesto torna visível uma verdade invisível: a oração da Igreja que se levanta ao céu.

Martinho fez questão de distinguir esse incenso resinoso, que queima em alta temperatura e libera o aroma da própria resina, dos populares palitos aromáticos, que queimam frios e escondem cola e essências sintéticas. A observação não é preciosismo. Ela traduz, no plano dos materiais, o mesmo princípio de toda a liturgia: os elementos da natureza que entram na celebração, o pão, o vinho, a água, o fogo, o perfume, são sinais reais, e a sua verdade importa.

Um só rito, formas diversas

A unidade da liturgia não significa uniformidade rígida ao longo dos séculos. Padre Balbino recordou que a própria Constituição Sacrosanctum Concilium reconhece na liturgia uma parte imutável, de instituição divina, e uma parte suscetível de mudança. Foi nessa chave que a reforma pedida pelo Concílio Vaticano II introduziu, no Missal de Paulo VI, de 1970, a variedade de Orações Eucarísticas e de prefácios que hoje conhecemos. Antes, o Missal de São Pio V, o chamado Missal tridentino, trazia uma única Oração Eucarística, o venerável Cânon Romano, que permanece como a Oração Eucarística I.

Sobre a forma antiga, o Anima ouviu Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, em Campos. Ele explicou o que é uma circunscrição pessoal, dirigida a pessoas e não a um território, que reúne os fiéis ligados ao rito romano na forma antiga. O testemunho ajuda a compreender que a Igreja guarda um patrimônio litúrgico amplo, cuja disciplina cabe à autoridade legítima ordenar. O Padre Balbino resumiu o critério de fundo: celebrar bem é celebrar conforme o Missal, sem inventar situações, e não segundo o gosto de cada um.

Os dias maiores e a homilia que ecoa

É no Tríduo Pascal que a liturgia atinge o seu ápice. Padre Balbino recordou que o Papa Pio XII chamou esses dias de os máximos mistérios da nossa redenção. Ele desfez confusões comuns dos fiéis: a Quaresma não termina no Domingo de Ramos nem na Páscoa, mas na manhã da Quinta-feira Santa, quando ao cair da tarde tem início o Tríduo. Explicou a diferença entre jejum e abstinência na Sexta-feira da Paixão, e mostrou que a penitência quaresmal, enquanto proposta pessoal, pode estender-se até a Vigília Pascal, quando já celebramos a Ressurreição e é justo que a alegria transborde à mesa. Detalhes? Não. São o modo concreto de o povo entrar no ritmo do mistério.

E se a liturgia é encontro, a homilia é um dos seus momentos decisivos. Dom Devair fez uma observação que fica: a Missa é o horário nobre da Igreja, ninguém fala para tanta gente, todos os dias, quanto o padre no ambão, e é uma pena desperdiçar esse tempo com discurso frio, recados ou política. A homilia nasce da escuta da Palavra e existe para iluminar a vida da comunidade; o fiel deve sair da Missa com algo ecoando dentro de si, provocado, tocado. Como Santo Agostinho, que se converteu lendo a mesma Carta aos Romanos que todos lemos, cada um pode ser alcançado hoje pela Palavra de sempre. A liturgia, cíclica e paciente, volta a cada ano a nos oferecer o essencial. Basta que cheguemos com o coração aberto.

Repetimos os mesmos gestos, mas nos apropriando deles de uma forma sempre nova: a liturgia não é invenção nossa, e é por isso que ela nos alcança.

Para aprofundar

Livros e estudos sobre Liturgia e ritos

Livros
  • Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia)

    Concílio Vaticano II · 1963

    O documento fundante da renovação litúrgica citado por Padre Balbino: distingue a parte imutável e a mutável da liturgia e define a participação ativa.

  • Catecismo da Igreja Católica (parte II: A celebração do mistério cristão)

    Igreja Católica · 1992

    Apresentação segura da economia sacramental, dos sinais e símbolos litúrgicos e do sentido dos ritos; base para tudo o que os episódios exploram.

  • O Espírito da Liturgia

    Joseph Ratzinger (Bento XVI) · 2000

    Clássico contemporâneo sobre por que a liturgia é recebida e não inventada, e sobre o significado dos gestos, do tempo e do espaço sagrados.

  • Mediator Dei (Sobre a Sagrada Liturgia)

    Papa Pio XII · 1947

    Encíclica que preparou a reforma litúrgica; o mesmo Pio XII que chamou o Tríduo de máximos mistérios da nossa redenção, como lembra Padre Balbino.

  • Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR)

    Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos · 2002

    O texto normativo que Padre Balbino cita ao explicar cada parte da Missa; indispensável para entender a estrutura e os ritos da celebração.

Papers e documentos

Referências reunidas como ponto de partida para estudo. Confira sempre a edição e a fonte originais.

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